Não me lembro de ter
Chicoteado palavras
Maltratado símbolos ou signos
Aviltado verbos
Vilipendiado sujeitos, predicados, adjectivos
Ou sequer, advérbios de modo, circunstância ou lugar.
[Circunstancialmente, é certo,
Usei-as mudas,
(in)reificadas,
íntimas,
castas.
Exageradamente a medo. Reconheço!
...
Era quando, iludindo
O verbo te cantava e te chamava “amigo” … ]
Nunca me disseram, porém, me admoestaram pois, que, certas palavras,
Podem, longitudinalmente ao tempo, inquinar-se
Enquistadas por dentro, se não ditas a céu aberto…
[Falácia não foi meu erro…]
Era de amor que falava, redigo e, apenas aqui, títere palco sem gesto
De te_ser palavra, empreendi de as murmurar
E, mesmo assim,
Num tom bem baixo de quem reza o terço
Esperando por Si ser ouvida.
No corredor da morte
Agora
As palavras, todas as palavras,
Têm caras fechadas, mandíbulas assanhadas, proeminentes.
Delas, as sombras. Essas, têm rostos aquilinos.
[Mordem-me as palavras.]
No recorte pálido de rostos sisudos
Busco o azul da tinta com que te escrevo.
Do Sol o ouro, com que te "adouro"
Mas tenho ainda
medo
…
medo …
medo…Esgaravato da cartilha, os dialectos, os alfa_betos e,
Sem excepção, um a um,
Modernos ou arcaicos,
Católicos ou laicos
Os abecedários estão para além de silenciados.
As palavras morrem vitimadas contra os lábios secos, gretados, semi-abertos …
E eu?
Greta Barbo? Shehrazade? ... sequer Cinderela..
Hoje…
Hoje,
queria escrever-te um último poema, um tratado
Sistémico sobre a arte milenar de te bem-querer em tudo a parte.(1)
De bem cavalgar a sorte…
Consultei os manuais dos reis, (1) dispersos p'los alfarrábios …
Mas, na bruma do deserto, turva-se-me o olhar.
As letras tem a aparência estranha, mal as reconheço...
Empreendo o tacto...
Grafiti? Código de barras?
Ou hieróglifos enigmáticos?...
Olho-me e apenas vejo um montão de ossos secos
Sob gazes que me enrolam, múmia egípcia.
Olho-me uma vez mais do alto:
O sol tisna o crepe com que me visto.
Agitas-te.
Queres-me ainda por um segundo que seja.
Abanas-me.
Gritas…
[Eu queria-te para toda e além da vida… e não to disse.]
Em desespero de causa, molhas-me a boca
Com a lágrima que soltas de um rio que existe
Subterrâneo em ti …Não o sabias...
[É lá que uma Tágide t'habita.
Compreendes a mensagem?
"Para sempre".]
Dizes-me:
“Olha, Bonequita… o Paraíso é algures por ali…”Indicas-me a estrada. Errada. A nossa estrada…
E sorris para mim. Por fim, sorris…
Mas já não estás dentro das palavras.
…
Encontrei-te por dentro das palavras. Elegível. Indecifrável.
Fomos, lado a lado, via férrea, vereda, estrada:
Corriges-me:
"código de barras"...
Decifrei-te. Decifras-te-me.
Brilhaste, leitura óptica, e foste. Sol em mim.
Amei-te na forma arcaica e primitiva
(amo ainda)em amplitudes desmesuradas...
Nota:
1)Alusão à literatura real, nomeadamente: - O Livros da Montaria de D. João I, e A Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela de D. Duarte e ainda deste último, Leal Conselheiro, sobre a ética e a prática da vida quotidiana…
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