“A arte tem como objectivo o sensível espiritualizado ou o espírito tornado sensível" (Hegel, Estética)

quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Por um olhar

Havia um lugar a que nunca tínhamos chegado.
Sempre que os pés calcorreavam o vasto dos caminhos
Bolhas de água inundavam os pastos da campina
E o gado espantado
Não sabia se a planície era ali
Ou se, do rio, se fizera mar.

[A mulher, apenas uma estriga de linho, fiava-se
Num fuso de luar.]

Eram sempre estranhos os dias em que o rio crescia
Solto dos olhos - Nem botes, nem motes. Nem palavras.

O povo recolhia das várzeas tudo o que demais podia...
Ela o silêncio perene das águas. Por um olhar.

...

“Por um olhar, um mundo; /por um sorriso, um céu; /
por um beijo...não sei

que te daria eu.” - Gustavo Adolfo Bécquer
__
Imagem da net

segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

Sapatos de ballet


Quão cruel pode ser
O sossego
Na borda-água Entediada sombra de um tempo

- beber-te é jugular a sede em mar salgado -

Sobre a areia
Os pés Descalços_________ os movimentos
Suavíssimos
De musa em pontas
De ballet A música O rio parado O mar O ronco das ondas
Onde as gaivotas se negam de embriagar-se
Em baba - insalubre a sabem …

Não, não me peças mais
Exortações
Na forma in.completa de palavras

- afadiguei-me de tas dizer -,

Pede-me o sal da minha pele
E deixa, deixa o amor acontecer -

Desnudos pés, sapatos de ballet
...
___
Tela: "Sombra do tempo" de Júlia Calçada

terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Se a urbe chorasse

I
Baixa e voluptuosa a música das aves
Cinge a alma - Pluma que se eleva e varre savana e selva.

Arroja-se a mulher
Em passo doble

Inquieta-se
De ausência
- ardor em pele alva -
Poema que não escreve, colado em si,
De Si Maior, in.vertida escala.

É cheia a voz
Docíssimos os alvéolos
Com que a abelha laboriosa
Tece e adula
Miríades, réstias latas de gestos
E de vontades tardias E nelas se
Vangloria o verbo de alcançado
E nele se rasga
A voz gentil da areia crua
Na cor do Ouro contra O azul O sul ao largo, imensurável
E o profundo coral.

II
Troveja o céu e chove agora …

Soes em mim a chama O firmamento A linha de água
E distante
Na distancia equidistante
Mergulhando a meia légua
A fúria brava
E o cheiro pálido do louro e do jasmim.

Na fraga dos teu lábios
Bebo as horas madrugadas dos minutos
Porquanto Excalibur ao largo
Desembainha e empunha a lâmina
Se
Da pedra ascende
À meia-luz
Em cantos de delírios e triunfo
Amazona que
Cavalga em esporas o teu corpo. Oh, insanas vagas de mar alto…


III
E das ondas incontidas absorvo agora sacrário néctar
Salso d’acre volátil vento já subido
do mais religioso piáculo.

E pende a árvore, nos ramos doídos - manso salgueiro
Sobre o ribeiro
A ouvir bem funda a voz inconstante da água…



Ah, meu amado se por nós agora
A urbe chorasse decantando de meus olhos
Pérolas ostras de mágoa …
___
EXCELENTE 2010 A TODOS!

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

No limiar do gesto


No limiar do gesto
Que [a]guardo
Na polpa doce de teus dedos

Encontro a paz Entrego-me
Plena
Sem receios
Enquanto, no silêncio das palavras

Que não digo

- e me sulcam correntes
De águas mansas em peito -,

Gota a gota, conta a conta,
Em profundo mutismo
Rasgo um sorriso

E rezo
E agradeço[Te].

No limiar do gesto
Sou agora a rena que puxa o trenó
Dos teus sonhos de criança.

Seja
Quando, falta de forças, desta d'hoje,
cinza ou nada, em ti, rena d'então,

Dulcíssima lembrança…
___

Foto: Cortesia de amigos

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Tudo o mais se faz velho [...] a não ser



Tudo o mais se faz velho
Desagregado do horizonte por força da íris fresca de meus olhos
Verdes

A não ser

O teu rosto, mapa de dunas e marés, xaile de sete cores,
Onde me dispo a desfavor do frio deste Inverno.

Feliz o anil o abismo [vitalício] o fruto são o amarelo embriagado
- vermelho o mosto - em cada filamento solto com te fio
E fiando, em roca, em ti me teço… Doce novelo.

Das estações de Vivaldi à agonia de Mozart
Em luz, de Juno seja eu, serpente. Arauto em ti. E tempo novo.

___
Tela: Jupiter & Juno”, from “The Loves of the Gods”,
by Annibale Carracci (1560-1609)

domingo, 13 de Dezembro de 2009

Ilusória tranquilidade

Ilusória tranquilidade
A das heras
Verdes
Contra
A sebe que as sus.tenta. O outono chega. E logo o Inverno...

[o chapéu assenta, ao de leve,
Levíssima
Forma
Sobre
A cabeça, que re.cobre…]

A neve cai
A luva branca retém o vento.

Amaríssimas sejam
Pois as lágrimas e a saudade...

Indizível paz, a nossa,
Se
A terra é chã e plano o ventre
Donde
A água lisa brota. Como uma fonte.
___

Tela:“Rapariga de Luvas, 1929” Tamara Lempicka

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Provisória eternidade


É de gente
Este silêncio sem asas que me bate
Horas peito dentro
Relógio d'água
Faquir em praça Leão de arena.

[Indigente
O verbo escorre-se lava pelo corpo
De um poema
Que não sou E que te concedo. ]

É de gente o traço resoluto
As linhas gastas
O ponto cruz do gesto
O dedo aposto contra os lábios

Em detença

[vestígios de um vento. quente. e o vidro...]

É de gente ainda
Este meu querer ser mais do que
Substância brumosa
Ávida de palavras

E de sinais de fogo.

- batuques ao longe Tambores -
Oiço.

Gravemente nua
Na intimidade que só a ti ofereço
Adio o amanhã no ontem
E sequer me reconheço.

Provisória a eternidade do momento.


Pintura: Juan Medina

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Pálida



Erguem-se os dedos sobre a boca
Pálida
A pele greta: distancia entre a palavra
E a garganta do poeta. Palato onde a saliva floresce
Na aridez do deserto ...[pura hiemação?].Por certo.

Em tibieza
Laços. Tão frouxos. Se, por inércia, nos abraços, que negamos, fenece
a Terra inteira.

Importa, na urgência, desatar o chão, os górdios.
Soltar os
Pomos, flores, [re]florescendo galhos. Ramos,
Secos de outrora.

Os sãos, agora - Estrelas, astros - nós [e os outros].
___
Trabalho fotográfico de Calin Moldovan

domingo, 29 de Novembro de 2009

Carta a Garcia


Haverão de os dias
Verbos
Unissilábicos
Tornear as noites

- Como as águas -

Ao redor das pedras
De que nasceram

Haverá de haver
Sinete e lacre

E o verde enverdecer
Hálito de fogo para além de fátuo
Sobre as cinzas...

Não só as letras. Talvez o abraço,
O toque dos poros Os corpos dos astros
Os rios da memória Os ossos

comprimidos

Nos bastasse. Odisseia para lá do espaço,
Ou carta entregue a Garcia…

___
Imagem de autor desconhecido


PS: Sobre “Uma carta para Garcia” leia-se, de forma sucinta e clara aqui.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Nem então


Nem então
Naquela tarde
O livro. Ou a cadeira. Havia uma mulher na folha
Flor
Que olhava e lia. Uma nervura___ estípite.
Pétala ?... Ou tronco de si e de uma geração inteira?
Sequer sabia.

Luminescente
A lua, soluto de orvalho e prata
- solvente a gota. sal. Provinda do Umbigo de Vénus
Pousava
Retida na ombreia
De uma porta
Que
A contra-tempo, ora fechava,
Ora se abria. Inquieta.

Era nesse preciso momento que ele
Arrazoava, pedindo meças à razão,
Serem dela as sementes
E as todas as demais flores que haveriam
De nascer.

No peito, saudades de futuro. Em mão a flor, acéfala.
...

Uma só. ainda. por ela___e um só dia.
"era o último amor, e não sabia"
(1)

___
1) Luís Filipe Castro Mendes
Foto: Daniel Camacho

domingo, 22 de Novembro de 2009

Iam as mulheres


Iam as mulheres
Como as palavras, nas tardes de Domingo,
Desaguar ao rio. E deste ao mar. Sem mais,
A via sacra.

Sobre os restolhos sobre as caleiras sob os telhados
E nos beirais das casas das ruas esguias
Subiam vultos
Em voos picados
Exercitando músculos numa coreografia de ballet. Uníssonos.

De quando em vez, pousavam. Andavam
Rápida e agitadamente, nos valados abertos.
Picavam a terra em busca de insectos.
De vermes, talvez.

A mulher a quem o tempo gasto a olhar o vento
Através de uma peneira sem fundo
Debelara a exactidão prosaica,
À luz de um sol poente não se permitia afiançar
O género a coisa a espécie.
In_firmava.se contra
A nudez de si
Reflexa nas águas
E afirmava serem pássaros. estorninhos. formigas de asa.
E logo duvidava. ou cardumes
Reprodutivos em forma alarva.?…

...

Na desova, as mulheres, como as lampreias,
subiam à nascente do rio.
...e as palavras! Aos Domingos.

__
Foto: Richard Barnes

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Segredo de Epidauro

Entre o caminho e a estrada
As lagoas. Desabitadas. As mãos e os gestos. Por sobre a terra

A vontade de convocar os deuses
Para o banquete de larvas e de sangue. As rãs. O coaxar das rãs, lacustres.

Ritos de passagem. A paz de possuir-te na noite estreita. De meu sono
Que não tenho

As minhas asas O voo Madrugada a dentro.
O soluço___ Embargado
Na serpente. Divindade do submundo do meu templo.

E o segredo. Do grito. Da voz. De Epidauro.

___
Tela: Steve Hanks




Nota:
Epidauro, cidade da Grécia antiga, nas margens do Mar Egeu, “Meca”da medicina, célebre pelos rituais de cura ai realizados. Comportavam a práxis de banhos, jejum e poesias.
Para sempre estão de nós, comuns mortais, guardados os segredos de Epidauro.
Sabido apenas que a medicina grega, de base mitológica, associava a cura a diversas divindades - Apolo, Afrodite, Atenas -, mas não descartava a intervenção dos deuses do “submundo”. A exemplo da serpente, divindade subterrânea cujo significado emblemático perdura até hoje associado à medicina, simbolizando poder de renovação da vida patente na troca cíclica de pele.
Sabido igualmente que as regenerações do espírito e do corpo deveriam acontecer durante o sono. Que se desejava profundo e relaxante…


segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Semiótica

Reflicto
Liminarmente
As marés de vidro de teu desejo:
Refulge límpido.

O lago, soluto de água doce,
Reflecte a luz que te vem de dentro.
Corta se quebra. Cerce o excedente: Fogo que abre
O velcro que me ponteia.

A terra fende-se. A maré sobe.

Naufraga, ancoro-me na palavra. Entre o azul o o verde,
Hei-de escrever amor em cada poro de tua pele.
Retrato sem pouse. ____liminarmente
Incendeia(se) o barco de papel em que navego. tomas-me. exígua folha.

É de posse que falo? Seja
Se a embriologia dos tempos crava esporas em peito.

rente. rés à memória.

___
Tela: Oussik, Sergei

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Da inquietação

Tomam-se as mãos de inquietações febris
Sobre o teclado E o olhar
Furtivo
Mediação de dunas Veleiros que guarda
Dentro do peito Urbes_Cidades,

Barcos sob a tempestade Riscos deixados
Na teia do rosto

Nos juncos da beira rio o cão
Vadio
Indaga o cheiro Da ave que não voa Do peixe putrefacto
Do osso oco
Sem medula
Do cais ao lado Estancada no reflexo
A mulher toma-se de líricas Opúsculos
Folhetins com fedor a naftalina. Mofo. Lê-se e decide
Sobre se o melhor será o corte dos pulsos
Ou o mergulho na água. Opta pelo primeiro
[...por via do frio, que não suporta. "só por isso!", remastiga...]
...
No rio, por fim, a cor com que tingia a madrugada.

___
Foto: cortesia de amigos

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Do regresso


Hão-de retornar-se as memórias do azul
O verde das cabeças na campina
O grito das pestanas
Entreabertas.

Em travessia de rugas com o Sol a pino
Quedar-me-ei então sob os teus olhos
Em contagem regressiva.

[Hão-de retomar-se as raízes por dentro dos troncos. ]

Por agora
Apenas
O gota-a-gota vaporizado contra a vidraça.
__
Tela: Salvador Dali

domingo, 8 de Novembro de 2009

Vinham pelas veredas


Vinham pelas veredas

Os passos

E os sapatos descalços Sobravam pernas
Mais ossos do que carne. angulosos. engelhada pele.

Aos olhos do poema
Desfocava-se o tempo dos escombros
E das glicínias

[Escuro o silêncio E os tons matizes da erva cidreira
Nos troncos por entre as vinhas em pousio agora.]

E da partilha. indeterminada.

Na aresta da chuva
Na verticalidade da água
Por nós

ainda

Renascem causas originárias.
___
Trabalho fotográfico Kowalik, Piotr

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Como neves.

Nada
A não ser o interminável. O relâmpago dos pomares
Se os pomos e as folhas se soltam antecipando o vento.
Ou o ranger dos mares por sob as tempestades.

Nada
A não ser o nó de sangue, consanguíneo,
Respiração de dedos e cabelos
Nos pulsos abertos sob harpas E nos sinos das memórias
de barro feitos Ou
O vidro moldado no fôlego do peito.

Nada
A não ser o espelho. Pedaços de luz ou naifa,
Dependendo do uso de cada um.

Nada
A não ser o aroma.
Fragrância fermentada da fruta-pão solta
Da noite da insónia. Como neves perpétuas.

E digo
Sol. e sul. saudade. sonho. secreta prancha . estímulo.
Espinho a que me agarro.
Como flores. em pé-de flor o ponto. brocado. corpo.
pétala_a_ pétala [o]culto.

__

Tela: ZhaomingWu

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Da morte


Da morte
Ao largo os barcos. as buzas. os sinais de fogo

E os lenços

Com que se enxugam palavras que calamos Por vezes.
Estupida.mente se estropia.

Só morre
Quem não deixou
Um traço. um risco. um gesto. um pulsar de sangue
No mistério do coração humano. Ciclames acesos.

___

Autor da litografia: Guyer Salles

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Flor do antúrio


Enquanto os antúrios, aqui ao lado,
Geram folhas modificadas, brácteas coloridas
Se insignificante é, do sul a norte dos pontos cordiais,
A fronte oferta,
Em
Inflorescência breve,
Fica a mulher, sem mais, na sombra
Parca, mal iluminada
Do Sol de Inverno.

Desassossega-se a pele. Na pele da alma, re. surge
Flor. fermenta, levedura_ Fecunda flor. D’antúrio. E só a alma gera.

__
Foto: Joaquim Pires Ferreira

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Do infinito e doutros mares


Delonga-se o poeta
Ao voo picado. Ao fulgor do sangue.
Inquieta-se na secura das palavras.
E nas rotas das sedas. Tacteia-as. Desdobra-as
Pelos vincos, delicadas.

Inquietam-se as sementes sob o sol de Outubro findo
- plantas aromáticas em vaso suspenso da janela
[e nos jardins de pedra] -,
Alecrim, salva, malva-rosa, segurelha. Predestinação ao corte.
Gral que sabem...

Toma-as o poeta, ternamente -
Algas frescas com que se avulta, água.

O poeta desconhece se é caminhante ou ave.
Espeleologista, talvez, garante que se substituí
Ao frio da noite Quando, se desentranha das estrelas,
Se compromete em absoluto à aspereza da escalada
Sem medo de esbarrar de súbito com o Infinito E outros mares.

___
Imagem (aguarela) encontrada na net, autor desconhecido.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Herdeiros de Alcácer-Quibir


Havia muros a tolher as ruas da memória.
E os sonhos. Fumegava óleo, Natal por perto.
[Daqui e de além, subia o odor nauseabundo das latrinas, das fossas a céu aberto …]
Folhas secas mirravam sob os dedos
Das libelinhas.

[Havia quem lhes chamasse de antenas.
"Parabólicas".] Parábolas, seriam.

Ela só conhecia a regra de tender para infinito. Os sonhos e os gestos.
Recta, calcorreava-se em decalcação do eixo
Próprio.______________________Linha.
Elipse, de seu nome,
Coalhava o aceno.
A mão avançava por dentro do corpo. A mulher gemia. nascia vida.
O gato miava no som da criança que outra paria.

A luz da clarabóia [des]coloria versículos gastos
Dos poemas que não escrevia [dar vida, a sua poesia!]
...
Por dentro dos muros, dos tais muros,
Subiam pássaros sem penas tão desnudos como
Os heróis de Alcácer-Quibir expostos mártires em praça pública.

De dentro dos bolsos, saltavam, contudo,
Berlindes, cordas, peões, que oferecia, prestamista,
Aos miúdos, iguais a si: órfãos de tudo,
Até de pai e mãe. Cobrava-lhes o imperativo categórico de os ver sorrir.
Fosse qual fosse o custo.

E não se receava a esforços.
___

Imagem de autor desconhecido

domingo, 25 de Outubro de 2009

Curvo-me

Curvo-me
No advento de beber da fonte do teu prazer
- hão-de adivinhar os dedos
Todos os espaços
Onde
A Luz não penetrou.

Em cada letra, em cada frase decifrada

Recurvada, toco tangente ao chão, a corda tensa.
Hipotenusa. Teorema de Pitágoras.
Em concha de minha mão
O sémen que se escorre e me fecunda,
Sobre a terra, semente nua.

Desta entrega em que não sei onde sou eu
Ou sombra tua,
Sinto a palpitar por dentro das palavras
O rumor inveterado de nossas águas. Unas.
Singulares.

...

"Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia,/Cadáver adiado que procria?!"
(Fernando Pessoa)

___

Tela: Malinowski, Andrzej

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Desse espaço


Desse espaço imagético e afectivo
Onde mergulham os dedos e os lábios
- protótipo De gente
Antes sequer da divisão celular,

Desse espaço a refluir por entre
Anémonas e jacintos de um rio senecto
Voga
Arqueando axiomas e princípios
O desígnio maior - Devir. história ’inda por contar.

Sem malícia existe
O toque
Música encantatória que se constrói
Numa suite de Bach…

Existe o vácuo afeiçoado
&
A inexorabilidade do rácio
Que tudo soma, tudo acresce e mutiplica
Em
Contraste eminente, da polaridade, equidistante
Que une e afasta
Desse espaço _________________O espaço.
O azul e branco.

Cisnes em lago...
___
Foto: cortesia de amigos

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Em palco errado



Manhã. Aurora que mendiga.
Por detrás, a noite. Regurgita em boca. insone. não dormida.
Calcina a cama.

Salta.

A alma reverte-se vertida fria
No fundo de um café.
Num trago só! Engole.

Em omoplata escorre-se a alça. fina. da camisa. de sete varas.
Seda sobre seda. adelgaçada. óssea.
Eleva-se em pele, do pescoço à mandíbula.

Revolvem-se as entranhas
Na trança que se desmancha.

Chove. Rumor em telha vã. De lágrima e de beijos.
Retidos. Apolíneo[s] no Sol que sobe.

Há que matar a criança que a habita. Que se espanta.
Que alude ao tema em cada letra de poema.


Sobre a cama, a gata brinca. Ronrona.
Apelativa
A criança volta. Igualitária … felina a gata
Preta nos olhos de água.

Na porta ao lado
O cenário montado. Verde, o vestido. Glamour, brilho.

Lantejoulas em palco errado .
___
Foto: Cortesia de amigos

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Voltar ao cais.


Por vezes sentava-se à beira-rio
E o cais vinha enrolar-se
Como um terço que rezava
Na barra subida da sua saia.

Olhava sem destino
As margens
As aves
Ambas planando sobre os veios da memória...

Grutificava-se fertilizada para o acolher
Olhava a mesa
O café já frio
O copo a.zul prenhe de água
O bolo de arroz
Que não comia, perplexa
De ser in osmose inextricável,
Dele, só dele. a pele. a alma…

No Livro das Horas, Igreja seiscentista.

Outorgava-se o meio-dia. Nas ameias do castelo
A_meias com a vida,
A_braços com a vaga, dolente,
Em contrafé, tocava o sino…

O olhar alcançava a ponte de cinco arcos. Metálica.

Metaliforme, aquietava-se em minúcias do lugar -
Era ali que adolescia (adolescente) - se, à mingua de um só toque
Sequer o vento a velejava.

… por fim, das entranhas periféricas,
Luz aludia…

...

E tudo Era se, Ela o porto Ele o barco
De volta ao cais, Poesia.


___
Imagem: "Très Riches Heures" Duc de Berry, Octobre

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Da mineralidade do poema

Todo o poema é Pedra fossilizada
Onde
O ensejo, o ocaso, a madrugada
Rasgaram precipícios em delimitação
De tempos
De somatórios & Sistemas
Polimorfos
Diamantes (diademas) ou tão-só
Mica, grafite, pó...

De todos, registo de constante compostura química.
Dissemelhantes, as redes. Cristalinas.

Todo o poema
Contém
Galerias ocas por onde o som
De uma lágrima intrusiva,
Qual minhoca,
Desce e forma concreção calcária,
E se perplexa, água. _______ Doce. Dulcíssima
Em queda lenta onde
O rumor
Do vento apostrofo
Se silencia ao agudo alcantilado do fonema.
Já não se sente.
E sobe e desce,
Estalactite...

Demite-se o poeta, na mineralidade do tema
Que,
Os lábios, nos lábios desabrochados em mister,
São.no já
Não mais que greda. ___sincelo
Ou, assombro enfermo, acamado em barro de bermas.
...

Desço as escadas íngremes e a pele com que me visto
Fica
Suspensa na ponta que se escapa da minha sombra.
Sílex. Hirta. Ou rocha metamórfica.

[Todo o poema é mineral, insisto!!!]

...
Um cello toca. Tange.se a harpa, a lira gira, a sevilhana dança em pontas - arcaica bailarina -, por sobre camadas sobrepostas de húmus e de folhas
Em
Arqueologia aquosa e sensitiva.

O poema [des]cobre-se __ mineralizado. Rocha.

__
Imagem da net, autor desconhecido.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Do retorno das águas


A mulher não sabe o porquê das estacas,
Do cravar das estacas
Do ciclo ininterrupto das marés
De onde sopra
O vento Sequer do sal salgado Lágrima que galga e suga
Para que escorra Flua límpido, sem mácula, O poema.

A mulher desconhece a forma terminal
Que adivinha existir no cabo da via
- uma bola de fogo, uma passagem secreta, um pacto?

O rio esconde As suas águas. No rumor agitado
De asas, plana. Voga o cinza do temporal
Perdura
Leveza de pedras Lazúli Esmeraldas transparentes...

A mulher contudo sabe
Que
Ali, e apenas ali, sacia a fome e permanece
Paradoxalmente, ávida.

No retorno das águas
A água
Retorna e lava
O lodo Ao redor do barco Sobeja o cais. Caminha_se água,
Etérea. Substância inócua
Langorosa.
Por vezes chove...
__



Foto: cortesia de amigos

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Antes

"corríamos velozmente, éramos fortes e rápidos, agressivos e duros(...)
arremessávamos lanças a grandes distâncias e combatíamos corpo a corpo"

- in As Pontes de Mandison County - Robert James Waller


Antes que a fuga, declinação latina de verbos,
Se consubstancie nos ventos altos
De sub-reptícios movimentos
Ondulantes
-Pradarias de rosas e espigas re.plantadas em segredo -,

Pétalas, maceradas pétalas,
Na espera de um amor urgente,
Abrir-se-ão, comportas...

[e o rio passa. veloz passa.
fica
paisagem líquida que se escoa ...]

Antes que parta
Antes que o gelo da madrugada
Ocupe, definitivo, o espaço delta
Vale aberto do ventre
E teça
Tiaras com as folhas libertas de meu corpo,

Entra. Descalça-te...
Desmancha
Na ponta hábil de teus lábios
A minha trança

Trémula

Soltarei, de minhas ancas
O manto azul dos dias plenos

A teus pés.

Assim o orvalho das manhãs.
__
Tela: Malinowski, Andrzej

sábado, 3 de Outubro de 2009

Puzzle ou lego.


Des.construo-me. Peça.a.peça.
Puzzle ou lego.

Entrego-me
Em tuas mãos
Para que me faças
Tua casa.

Morada onde, por dentro,
No branco níveo das paredes
Imaculadas, me solto, caliça
Do mundo oculta.

Em total entrega, exorno e sou
Calçada.
Trilho. Maré-alta por onde, sem custo, navegas.

Ou ponte elevada
Por onde te conduzo para que subas adriça...

Depois, na forma bíblica, me lerás: - epístolas liquidas do meu desejo
Ao teu.

Depois. Depois …

Na linha de cabotagem... será(s).
___
Imagem da net, autor desconhecido

domingo, 27 de Setembro de 2009

Da noite insone

"no meu coração, há uma paz de angústia e o meu sossego é feito de resignação"
(Fernando Pessoa)
__


Na roca de fiar a brisa em vento
Fenece a carne. Pó
Sob mármore lapidar, indiferente.

Acima, o nome. Distinto. Epitáfia forma,
Riscos que o tempo
se encarregará de debelar.

Do tempo breve,
Série ininterrupta e (e)terna de instantes
Que te lego, ecludo, pois, inclusa,
Quando a raiz se exorta luz: Re_invento.me.
- da bruma à brisa. da brisa ao vento. do vento à bruma.
[reafirmo: em tudo há movimento!]

Em noite insone, melancólica,
Liberto aquartelados pássaros da memória:

Teus passos (que são tão meus), busco.

sombra. sal. fogo. água. lusco-fusco. re_colhimento.
ternura. in largição, estremeço!
minha luz

minha luz…
Estrela boreal em alvorada.

Na roca de fiar a brisa em vento
Sonho-te e vivo. [Que outro intento teria a vida?]

Se, pressinto,

Nada em nós se ultima ou corporiza.
para além dos sonhos...
___

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

descalços somos


“viajar é mudar o cenário da solidão.” - Mário Quintana.

pouco importa se aqui, ali, ou mais além.
os olhos buscam, ininterruptos, buscam.
____os olhos.
o fundo dos olhos… d’alguém. não de um alguém qualquer. os olhos buscam os olhos
de quem
amamos.
“amar é cuidar da solidão do outro sem nunca a preencher, sequer a conhecer” afirmo-te.
(não, não é minha a frase. Christiane Bobin o disse…)
contudo,
por vezes, não raras vezes, encetamos a viagem.
num vai e vem - marés ou asas. não sei.
ou barcaças
paradas. no cais da amarração … estas. iguais.
sem tinta.
dis_tintas, no desassossego da paisagem.
elas, aqui, em solidão acompanhada, retida ou viajada: a que investigamos, sabendo-a. certa, ombreada em cal e pedra, anos a fio, décadas a fio, séculos a fio e a outra, face plena da mesma, que se nos impõe,
passaporte que aguarda
a hora
pré-inscrita
___________________da retirada. da partida.
_______________e da chegada. por entre águas e margens, a fuga.
do todo. do nada. do que somos ou acreditamos ser e do que, sendo, encapotamos.
gigantes ou gnomos. druidas, fadas…
se é sempre de amor (ou falta dele) que falamos. que sofremos…
é de nós que fugimos. não do outro “vela ou porto”. do que nos tolda em toalha de água, reflectidos.
vestimos, nus, o verbo; desarmamos a alma; baixamos guarda, descalços somos.
"eu te recebo de pés descalços: esta é minha humildade e esta nudez de pés é a minha ousadia."
quem disse?
Clarice. Lispector, óbvio. quem mais diria?

igual, a minha. ousadia. dádiva confessa. ouso, ausente.
e, na mente, sempre: “amar é cuidar da solidão do outro…”. amei-te (como te amo ainda…) mas tu não sabias de amar. quedaste-te, de mim ausente. e amei-te, mais, e mais ...
cuidar-te…
és
sentido em minha vida…
sabido é que a ausência apenas agudiza o verbo; o verbo insidioso que se esmola em contrafortes de portas distintas, como que pedindo que as oiças.
por detrás das portas… oiço-te.
e vais e vens. vens e voltas.
como a massa d’água que contorna o porão de teu navio a cada estação de pássaros ou colheitas.
esta, que ontem se principia(ou). presente a forma; no pretérito do verbo, futurista.
[há uma árvore escondida em cada tábua. um nó de vida … ]

de lá de fora
o cheiro a vinho mosto e engaços: cachos despojados de bagos.
bojudos, os bagos em cores de ocre. as parras. secas, pó com que te des_cubro…
e o chão. pejado de maças. rubras, mínimas. riscadas…
...

agora, o aroma pálido dos corpos fustigados no vento.
recolho-me, encasco-me, esconsa no reflexo do que sou e nunca sendo - simplicidade de folhas e de juncos, barro em borda-água.
e, nesta lividez aquosa de verdades e metáforas, os segundos, enredosos, que se esvaem: espuma no cais do rio ou bátegas na amurada do teu porto em vitupério da palavra…

sabes, sinto que, em singeleza de malvas e de uvas passas, amesquinhamos sentidos no sentido imperativo da viagem.

estás certo: hoje acordei bruma!...ou lava?
___
Foto: Cortesia de amigos

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

...agora.

Ao redor tudo é verdade.
Regurgita magma. a cor. a face. a súplica. canícula essência…
[essencial o amor],
Recrudescer em conchas,
Límpida, depurada, de olhos limpos de chagas...

Azuleja-se o olhar
Enverdecido: um mar de malvas.
Rubra a saudade.

Com_sentido

Aguardo-te
Em antecâmara de mim. Unjo-me
De óleos finos. De.canto-me volátil
E subo. Invocação de memória.
Etérea, leve, tão leve quanto a nudez
Do álcool.

Eleitos, os teus passos.
Murmurosos. Súbditos, súbitos, sobre os espinhos

…agora,

Ladeiam-me nardos: linhas, criptografias de poemas…

...tomas-me.
Plena.
___

Foto: Arabian Queen - Gesell, Stefan

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Olhar de Leviathan


Anterior às mãos. à boca. ao beijo

Quando

O teu olhar tocar
Em fogo
Meu corpo nu

Há-de cumprir-se em nós a claridade das águas.
...
... no teu olhar de Leviathan
sem palavras.

__

"Leviathan And Esednahea" by Cristian Landero

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

texto de Isabel Mendes Ferreira

texto de Isabel Mendes Ferreira (blog "Piano")

vou. lentamente. pela ruptura simbólica da água. dos mares interiores.
em rota antiga. pressentido exílio mas só agora possível pela lenta. lentíssima passagem a um céu sem fronteiras.
paralelos e abismos de astros e poeiras fazem a distância mais perto e desata cleópatra o óleo do mar morto na renda de alexandria enquanto goya e rimbaud sobem a pulso cordilheiras e selvas.________não é delírio. antes a curva de uma sombra. lenta. de uma árvore escondida.
difusa mancha que os gestos des.prendem.
___

Nota: este blog está fechado aos leitores não convidados.

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

“hieróglifo”

Não me lembro de ter
Chicoteado palavras
Maltratado símbolos ou signos
Aviltado verbos
Vilipendiado sujeitos, predicados, adjectivos
Ou sequer, advérbios de modo, circunstância ou lugar.

[Circunstancialmente, é certo,
Usei-as mudas,
(in)reificadas,
íntimas,
castas.
Exageradamente a medo. Reconheço!
...
Era quando, iludindo
O verbo te cantava e te chamava “amigo” … ]

Nunca me disseram, porém, me admoestaram pois, que, certas palavras,
Podem, longitudinalmente ao tempo, inquinar-se
Enquistadas por dentro, se não ditas a céu aberto…
[Falácia não foi meu erro…]

Era de amor que falava, redigo e, apenas aqui, títere palco sem gesto
De te_ser palavra, empreendi de as murmurar
E, mesmo assim,
Num tom bem baixo de quem reza o terço
Esperando por Si ser ouvida.

No corredor da morte
Agora
As palavras, todas as palavras,
Têm caras fechadas, mandíbulas assanhadas, proeminentes.
Delas, as sombras. Essas, têm rostos aquilinos.
[Mordem-me as palavras.]

No recorte pálido de rostos sisudos
Busco o azul da tinta com que te escrevo.
Do Sol o ouro, com que te "adouro"
Mas tenho ainda
medo
medo
medo…

Esgaravato da cartilha, os dialectos, os alfa_betos e,
Sem excepção, um a um,
Modernos ou arcaicos,
Católicos ou laicos
Os abecedários estão para além de silenciados.
As palavras morrem vitimadas contra os lábios secos, gretados, semi-abertos …
E eu?
Greta Barbo? Shehrazade? ... sequer Cinderela..

Hoje…
Hoje, queria escrever-te um último poema, um tratado
Sistémico sobre a arte milenar de te bem-querer em tudo a parte.(1)
De bem cavalgar a sorte…

Consultei os manuais dos reis, (1) dispersos p'los alfarrábios …

Mas, na bruma do deserto, turva-se-me o olhar.
As letras tem a aparência estranha, mal as reconheço...
Empreendo o tacto...
Grafiti? Código de barras?
Ou hieróglifos enigmáticos?...

Olho-me e apenas vejo um montão de ossos secos
Sob gazes que me enrolam, múmia egípcia.
Olho-me uma vez mais do alto:
O sol tisna o crepe com que me visto.
Agitas-te.
Queres-me ainda por um segundo que seja.
Abanas-me.
Gritas…
[Eu queria-te para toda e além da vida… e não to disse.]

Em desespero de causa, molhas-me a boca
Com a lágrima que soltas de um rio que existe
Subterrâneo em ti …Não o sabias...
[É lá que uma Tágide t'habita.
Compreendes a mensagem? "Para sempre".]

Dizes-me: “Olha, Bonequita… o Paraíso é algures por ali…”
Indicas-me a estrada. Errada. A nossa estrada…
E sorris para mim. Por fim, sorris…

Mas já não estás dentro das palavras.


Encontrei-te por dentro das palavras. Elegível. Indecifrável.
Fomos, lado a lado, via férrea, vereda, estrada:
Corriges-me: "código de barras"...
Decifrei-te. Decifras-te-me.
Brilhaste, leitura óptica, e foste. Sol em mim.

Amei-te na forma arcaica e primitiva(amo ainda)
em amplitudes desmesuradas...




Nota:
1)Alusão à literatura real, nomeadamente: - O Livros da Montaria de D. João I, e A Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela de D. Duarte e ainda deste último, Leal Conselheiro, sobre a ética e a prática da vida quotidiana…


___
Tela: Rabi Khan

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

dimanar

“Os lobos sempre esses lobos/ assaltantes da memória/
recorrências de mim mesmo/
ou de um outro que me habita”

In "Suíte Para Os Habitantes da Noite", de Anibal Beça



A mulher eleva-se. Diáfana ou divina.
Ruge a nascente
E logo o tempo dispersivo e bissexto se acautela:
Ítaca, ela, em espera, se Ulisses se aproxima.

Fios nos fios do tempo… docemente.

Em movimento,
Ao lado, as bermas das memórias revisitadas.
[A doçura incontornável das giestas em borda-água.]

Desfraldadas
Evocam-se lembranças. E o registo dos erros.
Aprende-se. Revive-se
E afaga-se o que sobrou - manta opróbria, rota ou sacra!

O tear (1), testemunha do silêncio, re.tece a palavra
(o poeta é um rio
Sem bordas, sem margens, equidistante de tudo…
O poeta tece, junta e cirze...
As pontas.

Aguarda o tear.

Por_Fiar o verbo. Amar… amar…perdidamente
Romper as brumas.
Centauro ou lobo, na força centrípeta
de luz a dimanar…

...
E nós tecelões antiquos, apóstolos...
Magos que somos
Em Nova Era.

___
1) "E cruzam-se as linhas/no fino tear do destino./Tuas mãos nas minhas."
Guilherme de Almeida
___
Tela: Jim Kuckermanfemale centauro”

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Há-de haver


Há-de haver um dia
Em que nossos dedos se tocarão
E as margens, ourelas estas, do que fomos, do que somos,
Hoje
Burilarão enseadas e distancias.

No intercalar de margens, pelágicos,

Seremos

Torrente
Enxurrada impetuosa
Lava
Ou “águia caudal” que se eleva em penas ruivas

Saberemos então de um
Lugar onde

A chuva desliza água
E as pedras, essas, afagarão as pedras
De modo igual.

Há-de haver um dia em que aprenderemos
O amor
Em claridades cor de fogo

Na leveza de espécies aquáticas.
____
Imagem da net: “cehalopoda love”

sábado, 29 de Agosto de 2009

Dis_rupta.


“Importa que não haja ilusões sobre este ponto:...

Estou em pleno mar e morro.
Fino-me na morte lenta de que não sei sabor [a água quer-se insalubre, dizes]. Concordo. Contudo não é de água que falo. É da ausência dela. Da saliva, entendes?
Ris-te. Um esgar nervoso de pálpebras coladas a córneas vítreas a ponto sal.
Cerra-se-me o olhar como ponte. Levadiça.
O fosso aberto. Cobras marinhas galgam por todos os lados. Lianas as linhas com que me prendes. Porque me prendes? Não me lembro, acredita… Deveria ter-te dado carta de alforria?
Rememoram-se-me ideias; confesso que por vezes esqueço que para ti não passo de uma boneca. De trapos. Que de tão perfeita, de feira em feira, de palco em palco, exibes. Esticas a boca. Rasgada. Títeres os gestos. O palco in_certo …
Depois a caixa. A tampa. Silencias a boneca.
E estás com_sorte …as consortes querem-se caladas. Mansas. Cordatas….
Salta-te, em disrupção, faísca do teu sobre o meu olhar.
Não me controlo.
Dis_rupta. Retomo o absurdo do tema. Ínsitos que me arrolam a garganta se não tos digo: morro de sede, esta água não me serve. O sal envenena-me o sangue e mina-me as paredes… Rompo definitivamente com o formalismo do verbo. Ignífuga, no antes. Era. Fui. Nunca me soubeste. De mim direi: axífuga.
______Insanidade de mulher-poeta, contestas.
Recomponho-me. Já não me cravas esporões em alma. O cabelo desprende-se, trovoada. Sobre os ombros. As cargas. No porão, acícula!
Olhas incrédulo o tabuado. A onda oscila o barco. O prego escava o mar, em busca de água doce… Se existe? Existe sim. Um poço. Um cântaro de barro. Sem asas.
Barras-me a passagem. Romana? Indagas.
Fico sem palavras. Depois de tantos séculos a viajar cativa em teu porão não sabes o ditado antigo “em Roma sê romano?”…
Serei romana, árabe, grega, persa, turca... Não me sei origem. Sou ave em constante migração solta da arriba, malgrado das avissugas que se colam em minhas penas. E dos ácaros, gárrulos, ou vizires matemáticos rolando ábacos em cantos mistos de mulas sem pernas e sereias noctívagas.
Não, não me colocarás burka. Já me chegam os trapos. Na próxima "encardenação" serei múmia, provoco-te e digo...
Endoideceste. Concluis! _____O vaticínio é teu. Deves por isso estar certo. Estás sempre certo. A louca sou eu, em permanente disrupção.
De que falavas mesmo? De água. Ou da falta dela. Rosnas entre dentes.
__________Oiço-te, contudo … respondo-te. ________________baixo. Não sei se quero sequer que me oiças. Ou talvez saiba: ...Não. Não quero. Apenas desejo destrancar palavras, para que me oiça a mim. E me consciencialize de que elas ainda vivem quais múridas nas galerias clandestinas de meu peito. Roem-me, sim. Rasgam-me o ventre…
Disrupta, solto:
Estou em pleno mar e morro. De sede... O caso é esse, entendes?

A linha cede. A marioneta caí. E bebe.
O mar, seu alimento. In_verso.


...é que todos podemos morrer de sede em pleno mar.” -
João Miguel Fernandes Jorge

__
imagem da net, autor desconhecido.

domingo, 23 de Agosto de 2009

Retro



Abraço o vácuo… O ângulo aberto.
Enrolo-me espaçada na gota que solto. Ao rés do rio, afirmo,
Se faz a estrada.
[as velhas da praia chamam-lhe lágrima …]

Malha a malha, laça a laça, rezo-te. Recta, prossigo.
Inclina-se o tempo: O rosto na imagem…
[Retro_atelier. Película negra. ]

E a tábua: O rosto contra a espada.
A naifa. A marca. A asa, a boca.
A roupa solta, a água.
O glamour, o brilho...
Desatas
Corpete bordado em alvo linho
Re_Luz.
Aço de espada.
Declaras-me: Musa de Espadachim...

Declaro_te. Minhas as tuas margens.
___


Fotografia: Retroatelier

segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Da fertilidade, a lavra ... Géfion


I

Gefíon lavrou por força de quem lavra
Sem se poupar
A des_humanos 'sforços. De si se sabe d'Iônn cativa.

[...de imortalidade, o verbo, apenas.
Registo de palavra transitória, sem cunho acre de saliva …]


Perceptível, Géfíon Lavrou.
De empreitada a preito transformou, de Gaia, epitáfia morfologia
Porquanto,
Na noite, na bruma, na inconstante ventania,
Rasgou, moldando, nórdicas escarpas em terras aplanadas.

Insólita, recurvada a Si, se fez apócrifa:

Luz.da.luz, luz.na.luz,

Aquando de arado, brava, s' acravou:
In_Lamina
Metálica
Fria e fina. Retalhada...

E, de Gefíon, a própria, usou a carne, a linfa, o sangue:
Seus filhos, ela mesma,
Os quatro, em animais infatigáveis demudou exangue ...

Ao lado olhando, o tempo, Kronos imparável.
Somando minutos e segundos em ábaco
Por dentro da soma dos dias, dos meses, das estações dos pássaros e dos anos,
Em ritos de passagem:
Parcelas de_iguais, dobrado a quatro, nas quatro patas
De outros tantos. Bois bravos, mamíferos similares ...

E logo ali, à mercê de si, surge
Pedaço maleável de Terra Prometida
Ou, tão-só, a outra, a reflexiva: Ilha que,
Em derradeiro instante, o Sol a pino, recolhe ávida
Em salva, em palma...

De mãos abertas lança_A.
Lança ao mar.

[Agora é Golias, determinada. Desvenda o rosto, rasga o Umbigo de Vénus
Solta-se livre ao véu que rasga,
Ao verbo ...
Olha a nascente... E é mulher!]


II

Sentada em praia
Aguarda a barca. Do Inferno, do Paraíso, dos Sete-Lemes...
Que lhe importa, se do outro lado, o lago, o canto, o espanto,
[o lago Vären… ]
Já avista e sabe_O: Espaço onde
Em dias nítidos de claros alfabetos de um novo tempo
Fulminantes dançam
Acima de nenúfares - cinestesia de amantes síncronos em movimento-,
Cisnes brancos, pescoços hirtos, bandeiras desferidas iças à vida.

Que o tempo se ganhou ao tempo…
Fértil o campo. Tua a semente.

“E ambos estavam nus, o homem e sua mulher; e não se envergonhavam.”
Livro da Génesis, Cap. II, 25.
___


Foto:

Fonte de Géfion, escultura de Anders Bundgaard (1864-1937), localizada em Langelinie, Copenhaga, Denmark - [Cortesia de amigos]

Notas:
1) Géfion, Deusa da mitologia Nórdica.
Deusa da fertilidade dos campos, venerada especialmente em Seeland...
2) Esta deusa encontra a sua “equivalência” em Ceres, Deusa Romana e em Démeter, Deusa Grega
3) Os deuses nórdicos eram contudo mortais (por isso diferentes dos restantes deuses da mitologia greco-romana). Somente pelas maçãs de Iðunn podiam esperar viver até o Ragnarök. (a vida eterna ...)

terça-feira, 11 de Agosto de 2009

Sempre temi


Sempre temi
Determinar minhas as paisagens só porque as vi.
[Tal como as pessoas, não têm dono.]

As palavras, se as sei “inomináveis…”
Indago-as, temerária. Uso-as com parcimónia.
Alargo-as. Comprimo-as. Crivo-as in_forma
Lapidar
Por entre o sonho e o sono: Quero-as
Cristalinas, depuradas.

Do significado ao significando,
Da laje à areia fina.

Aos meus olhos d’água
Expurgo e cristalizo-as, crisálida a borboleta
em busca da radícula original. De ti.

Dos números
Escolhos os primos. Da aritmética, teorema fundamental.
Foi sempre assim. Invicta.

Sabes, na suavidade da tarde entardecida e
Uma vez só em toda a minha vida,
Deixei que des_cristalizem alfabetos.
[era de afectos que se tratava …]

Soltei fios de baba em paisagens. Nostálgica,
Bucólica… Descalça ardi no fogo intempestivo dos beijos
Que não beijei. Desejei. Fui anáfora, sintaxe...

Parábola em corda e arco
Cedi ao lampejo dos dedos frágeis, retalhei a pele, apocalíptica,
Em busca do húmus, de um chão fecundo e basto.
Encontrei-A, por fim, qual Hiparco. Em estado larvar.
Inominável Palavra.

Nomeei-te então...
E não temi ardência
Na fragilidade de minhas asas.

[...era de amor que se tratava. Maior.]
__
Tela: Miró, Juan - "Lapidari"

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Istmo

No epicentro da palavra
Que sequer pronúncio
Se abre
A água
E fica
A descoberto
O istmo
- Caminho insular de que bolinaste arestas
Na intensidade com que me dotaste de asas,
Igual a Ícaro, subidas da planície.

O céu é meu. O voo agora…

Garça, cotovia, águia?
Ou insignificante verdilhão, ínfimo pardal que pousa
Incauto no meio da estrada?
Ou ainda codorniz que te canta, monoteísta e trissilábica?
… Diz-me!

Por dentro da palavra proscrita
A luz alba da manhã no porto
Se, desdobrada se desfaz a noite antiga,
Para lá de Sta Luzia e o vento é brida,
Holograma de meu rosto em cornijas de navio.

Li algures que palavras são intrusas
Em momentos de ternura. Concordo. Silencio-me.
Envolvo-te, istmo,
Em tuas ancas, nas minhas águas profícuas.

Inata, em nudez primitiva,
Sei de te amar, baía branda, conciliativa, em gesto lento,
Se te amarei, seguramente, nesta, que me foge,
E noutra vida...
...

Bach. Ou Prelúdios de Chopin?
Arregimentam-se poros a cobro de areias finas.
Sem palavras, as bocas tocam_se
(prazer legitimo)
Em trocas absolutas. Infinitivas.

Um istmo. Um grito. Ícaro…O Sol tão perto
E a cera
Que cerze plumas, pingo a pingo,
Derretida: A vida, por um fio!

...

Um istmo, um "pássaro do sul" e tu.
É quanto basta.
___

Tela: Angel Fire, Anufriev, Alexandre

Nota:
Este foi o centésimo post aqui colocado em 2009.
A *__bonecadetrapos___* agradece profusamente a todos que por aqui passam e aos muitos que linkaram já este blog. Sem as vossas leituras, os vossos comentários que, simbolicamente nesta nota agradeço, não teria aqui chegado. Saber-vos aqui é quanto me basta! Nada mais procuro.

sábado, 1 de Agosto de 2009

Sob o signo de Leão...


“No princípio havia o Caos, um imenso espaço ilimitado. Então surgiu Gaia, a Terra, a primeira realidade sólida. Depois veio a Noite. Mas ainda restava um espaço vazio sobre Gaia, e para preenche-lo, Gaia criou um ser igual a si, o Céu (Urano). Gaia e Urano uniram-se por fim. E quando o Caos se organizou com as divindades primordiais chamou-se Cosmos.”
(Hesíodo - séc. Vlll AC)


I
De longínquo espaço, para além da Eritreia,
Vinham ondas vastas de canícula. O Sol rugia, fausto,
propagando ecos difusos em Mar Vermelho…

Estava sentada na praia Leda e lia!

Eram pautas as linhas de água. No colo a harpa …
A citara vasta e a roca de tecer magia.
Tudo ali se misturava. O tempo solar, o magnetismo, a energia…

Eis que senão Leda presente cravado espigão
Em pata calejada de mítico Leão. E porque espinho,
No incómodo, manqueia a fera, ressentida
Em arrítmica precursão de milenar caminho.

Na noite escura
Apenas a pelagem brilha. O Sol em espera
Renasce dia, quando felina Leda, perante a fera, se ajoelha.
Com a boca, beija a pata. Retira o espinho.

Solar regência, sabedoria, crente de que
Em útero antigo, se acolhe, da alma leonina ali à sua frente,
Generosidade, magnificência.
E loucura que a faz ser de novo menina...
Ou águia que se eleva na planície e tudo alcança,
Destemerária; E não temendo, avança…

[Era o tempo das colheitas, do trigo nas eiras…
O Sol nascia. Para Leda nascia. ]

II
E o mar balança e a vaga dança, se unos são Urano e Gaia.
E se, de espuma se recobre desértica praia de fina areia,
Aquela por onde, sob o primado do tempo
Vagueou o escravo fugitivo, que em alma de Leda ora habita.

III
Se ele ou ela, pouco importa. O tempo tudo transmuta
E conforma. Igualiza. Iguala. Em silêncio, murmura a fala...

Conta a lenda que a Alma (só ela, que o corpo,
É desta temporário habitáculo),
Se ajoelha perante o rei da selva, Senhor de si.
E que o Sol se esconde, empalidecido, se maior se revela que ele
Aquele amor.

IV
Dos olhos de ambos ali espelhados,
Jorra profícua fonte de paz e de harmonia.
Bipolaridade do signo:
Da água e fogo. Do Caos ao Cosmos organizado.


V
Mas outros tempos virão em que apenas são leão e escravo
Capturado que de novo, e que se enfrentam na arena…

O cheiro, o olfacto, o reconhecimento imediato;
Androcles se entrega ao seu amigo e este, perante plateia
Incendiária, a seus pés deitado, lambe-lhe as mãos, a boca a cara….
...

"Ela só viu as lágrimas em fio,
de que uns e outros olhos derivadas

se acrescentaram em grande e largo rio..."

Leda, Luís Vaz de Camões
___
Quado: Danae, Pintura de Gustave Klimt

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Texturas de filigrana.

"Estou onde sempre estive à beira de ser água..."
Eugénio de Andrade


São vozes nocturnas que esvoaçam em círculos sobre o meu corpo.
Enleiam-me, excessivas,
Desmesuradas, nesta vontade de te_ser água…,
[Contigo nunca soube o significado da palavra pragmatismo…]
Deixam-me em boca o gosto insalubre, o rio oculto,
Na impossibilidade de recuo. Da psicologia, uma das regras básicas.(1)

São sempre vozes nocturnas que pronunciam o teu nome,
Qual aragem a desbravar cristas de areia e espuma.

Ao longe, oiço-os. Os teus passos…
Sou criança a quem empurras
Baloiço. Balanço, suspensa da árvore da vida:
“…Alto, mais alto, vá, não tenhas medo..."
E, em sussurro,
Baixinho soletras, por dentro do teu segredo …
“...minha querida! ”


O eco ouve-te.
Incerimonioso, retoma-te: "...minha querida... minha querida..."

São as vozes dos teus dedos que procuro, sabias?
Sei-te artesão na arte milenar de trabalhar o ouro em estado puro.
Em tempos idos, ainda que não saibas, garimpeiro foste.

Rendo_me. Solto os cabelos, desato nós ao corpete…
Ofereço-te o verbo, o verde, o peito aberto, a pele alva.

Ofereço-te a alma, se nada mais tenho que valha nada.

Sintagma,
Ofereço-me na forma bíblica e litúrgica, desejando o Devir:
O áspero de teu rosto entre meus seios. Sem margens outras
Que não as tuas mãos, a tua boca. O teu Ser...
Abraço_te. Abraça-me!

Mentalmente revejo-te.
Sei de ti, de cor, a geometria exacta. Secções e planos.

O meu peito, esse, semi-roxo, deflagra chama.
Espero apenas que o adornes. Texturas de filigrana.

...

A água ilumina já a lividez de meu rosto.
Debuxo esgar de luz. Como se o lusco-fusco
Deste lugar soturno, alvorada fosse!
___
Tela:Yigal Ozeri’s - "Priscilla’s"




1) Gestalt ou Psicologia da forma, seg. Max Wertheimer, "... existem totalidades, cujo comportamento não é determinado pelos seus elementos individuais, mas nos quais os processos parciais são eles mesmos determinados pela natureza intrínseca do todo"

sábado, 18 de Julho de 2009

"Coppélia"


Não sei do vento
Que expulsa gazetas quebradas
Das copas das árvores envolventes aos passeios de pedra fria
Onde gasto as horas mortas deste meu tempo …

Não sei dos rios, que dantes de cor sabia,
De fio-a-pavio: nomes, nascentes, afluentes,
Ou de quando
Encorpados tombavam foz mar a dentro;

Tenho memórias cavas,
Porém, de que, em pleno Verão se esgotam
E deixavam, da montanha à planície,
Não mais que filamento de água ou
Baba de caracol...

E um vale
Abrupto de seixos, de cascas, de conchas e de pedras,
Ora roladas, ora bicudas,
Recobertas a lamas secas;
E das margens entulhadas de toda a espécie de lixos...

Sequer já lembro com nitidez absoluta
Dos contornos explícitos de tua boca
Quando sugavas os mamilos hirtos de meus seios
E as tuas mãos percorriam cada curva,
Cada onda ruiva,
De meu cabelo, de meu rosto, de meu corpo…

Por vezes paro!
Sento-me num qualquer balcão vazio,
Recubro, pudica, a pele engelhada dos joelhos,
Baixo o olhar
E, intimamente, sorrio…

[Aqui, em tela, posso ser esta ou aquela:
Hoje sou “Coppélia”, boneca que te lia à janela, tal qual eu…]


São os momentos em que relembro
O cheiro húmido da tua pele, a leveza serena do contacto
Dos teus lábios entreabertos sobre os meus
E o olhar e_terno com que me abraçavas semi-nua,
E em que eu me entregava em osmose total.

Dizias-me tela, papiro, onde escrevias
A sal e sémen, linhas indestrutíveis, palavras cálidas
De um íntimo poema … ou pauta de magistral sinfonia.

Olhava-te. Sorria. Uma lágrima brilhava
Perlando a face, tocando a tua …

E de novo, mansamente, me tomavas
Dedicado a mim, como se de meu colo aberto se soltassem
Gotas imaculadas
E estas fossem contas de um terço, que devoto, rezavas...

Era Maio, eu Maria e tu, a meus olhos,
Hoje como ontem, a "flor sem tempo" de minha Primavera.
Envelheço. Envelheces ...
...

Elementar a Natureza:
Em tudo o simbolismo de um circular segmento,
Que nos insurrecta e ventila desde o primeiro momento.
Da vida à morte ...

Tudo o mais? Não mais que absoluto ilusionismo,
Eloquências, palcos cénico-poéticos,
Profecias
Ou resquícios de quimeras …

___
Notas:
1. “Coppélia é a história de uma boneca que de repente se torna num ser humano, com vida, e pronta a utilizar todas as funções que qualquer pessoa possui, embora o espectáculo misture a realidade com o imaginário. A coreografia de Coppélia ficou a cargo de John Auld e a música a Léo Delibes.”
In http://www.mulherportuguesa.com/tempos-livres/teatro/826;
Veja mais em http://www.revistadadanca.com/node/234

2. Imagem da net, autor desconhecido



terça-feira, 14 de Julho de 2009

... tão breve.

Entre a espiga madurada ao sol de Agosto
E o corte
Fica
Do mecanismo de agora, a saudade dos gestos
Cadenciados, lentos:
Ranchos cantantes de moçoilas, raparigas,
Empunhando o metal da foice.

Corpos vergados, o rubor dos rostos,
O restolhar das saias e os sonhos
Que houvera Deus e tempo, haveriam de realizar:
… uma mão cheia de filhos,
bem-aventurança no parto e se fortuna outra não lhes fosse dada,
Eros, seu alimento, pela vida e vida a dentro …

[Eram lentos os tempos d’outrora, meu amor…
Suão o vento ...
Colhias o pólen das papoilas com que me enfeitavas
Em nudez de alma ...]

Entre a espiga
E a mó que a trucida, hoje, como ontem,
Solto, o pó: alvo, branco.
O barro da amassadeira, o suor dos braços,
o levedar fermet(o)e,
O fogo fátuo do forno, o crepitar da lenha, a labareda acesa…

… o cheiro. O cheiro do azinho, do tojo ou do sobreiro …

Depois, e já na mesa,
A crosta enegrecida que nos recorda ainda a forma antiga,
textura branda que, em secretismo, a mesma encerra.
...
Entre ti e mim
Existem caminhos que só quem, desnudo ousou trilhar
Divisa: - teia intrincada, amplexo do hipótalamo à retina…

Cifra etérea e fina, que, em cada palavra se eleva
Pão
Santo Graal
ou tão-só, tentativa vã, de tecer loas à poesia …

… tão breve as nossa vidas. Tão breve!
___
Tela: Miquel Barceló «Improvisació II», 1987

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Havia a pedra


Havia a pedra.
Havia o Homem. antes de inventada a roda sequer.

Havia o nó. A anta, o dólmen, que se erguiam na planície
rasa de nada
Projectando sombras insidiosas.

E o sol a iluminar(nos) dando à lua o seu lugar...
[Longínquo se fizera naquele dia o mar]

Colheita póstuma, restava o cheiro da terra
Alguns insectos
Algumas larvas
O restolho
O rubro atrevido de meus cabelos
Soltos ao vento
Envolvendo a entrega
E a partilha atípica dos corpos.

Haviam cinco sentidos. E um sexto de que, por desnecessário,
Se não falava. Aqui residia o equilíbrio das nossas asas!
(A pares: braços, pernas e alma …)

E a rosa que, pétala a pétala, fragmentavas meticuloso
Entre os dentes
Para que caíssem purpurinas
De teus medos convertidos em iluminuras sobre os meus...

___
Foto: encontrada na net, autor desconhecido

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Das ostras e das ânforas ...

Amo-te tanto, meu amor,
Que não sei sequer, de verbos, alocuções ou de adjectivos,
Que te possam revelar, sem trair a hermenêutica,
O rigor, a métrica ou espírito da palavra,

Da forma, da fome, da subtracção e da soma,
Que,
Em cada segundo repartido, o nome, o teu nome,
Que, por oculto, jamais digo …

[... Baixinho, para que os Deuses te protejam
E me oiçam, chamo-te “amigo”…
Eles sabem de quem falo, do que não dizendo,
Lhes digo …
]

… me toma tomada em enleio helénico de rosto e alma,
Simples ânfora de Mar Egeu,
Em alto mar perdida;

E me desfruta cada célula de meu corpo,
Deste que, vergado ao peso libertino do vento, se (re)ergue
Dia após dia, cada dia, mais crepúsculo …

E deste amor maior a que me dei,
Mais vasto que o próprio mundo, morrerei, qual gente,
Um dia, em apoteose e glória,
Na areia fina da praia, ostra acéfala e quebradiça,
A quem a força centrípeta do teu mar, arrancou pérola e molusco…

E do mar além virão bandos de albatrozes e gaivotas,
perpetuar em cânticos dramaturgos a nossa história ...
___
Imagem: de autor desconhecido (net)

sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Do amanhecer


A manhã alvorece
Na manhã da minha espera.
Ainda não seis horas….

Abro os olhos. Noite que se esvanece
Além montanhas. A luz crescente. O sol em riste.

Nem fome nem sede.
Saudade apenas.

Penso_te
Aspiro_te
Bebo_te,
Essência. Fragrâncias de açucenas ou lírios brancos,
Em que cada poema se detêm ...

Em distância inexistente,
Energizada, amanheço...

Convictamente, garanto: existo, porquanto existes em mim!

___
Tela: Mondrian
(“Açucena” - aguarela e lápis de cor sobre papel)

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Das convicções


"Só tem convicções aquele que não aprofundou nada"
Cioran, Emil

Fez-se silêncio
E a boca engravidou-se de sal. O olhar de igual,
Como há tanto tempo não sentia…
Qual parto, dor que dói de dentro
E avassala,
E rasga, e morde,
E sangra,
E sorve toda a energia
No antes de ser criança. Depois tudo se acalma. É-se!
Plena! Convictamente plena!

Inconvicta, embrulhou-se no que lhe restava de pele,
Fintou o horizonte, descontinuada.
Quase que intimista, “concluiu” que aquele
Estado de alma de outra coisa não seria
Senão
Do mar ali tão perto. Ou da inoportuna ventania.

Na dúvida, duvidou de novo … foi poema!

___

sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Heresia pura...

Havia pratas na sala de jantar. Candeeiros suspensos
- diziam que de cristal da Baviera -, e cadeiras de pau-santo.
Sempre vácuas… Sempre altivas, conquanto.
Assim a vida!

Nas paredes, suspensas, umas quantas serigrafias.

Entrou! Abriu a gasta janela. A madeira ressequida,
Gemeu no pranto dos gonzos…
Um arrepio percorreu-lhe insinuante o corpo,
Tocou-lhe a alma.
Sem sequer pensar … Abriu-a num ápice.
[Amiúde dizia não temer vivos ou mortos…]

Aprumou-se em si. Muniu-se de baldes e vassouras
De palha de aço, flanelas… Aguarrás, óleo de cedro.
Não se temeu ao esforço. Subiu escadotes, andou de rojo…

De um tudo fez… Desejava o espaço limpo.
Tão limpo quanto níveo manto d’altar ..

Por fim, higienizada, a sala e ela, colocou
Baixelas na mesa. A melhor toalha de linho,
Os copos de cristal…
Dispensou as flores, não gostava de as cortar ...

No regaço guardou, como sempre até ai, em ausência
De palavras, um afago vitalício…“o colo do seu menino”.

Acendeu velas … esperou meio século. E outro tanto…
Os móveis recobriram-se de um pó fino, imaculadamente
Lácteo, imaculadamente branco...
… (era de paz que falava …)

Encontraram-na por acaso.
Seca, espectro… qual Boneca de Trapos.
Restavam-lhe colados aos ossos
Os sapatos de saltos altos.
E altivez no porte. E ternura no olhar …

Tocaram sinos a rebate...
Heresia pura, comentaram, incautos...

"Se só aos humanos os céus estão reservados ..."

[... E aos que conheceram nalgum dia o prodígio de amar ...
digo eu, Grilo Falante, se alguém me perguntar ...
]

___
Imagem da net: Greta Garbo, modificada

domingo, 14 de Junho de 2009

Ali era o lugar.


Ali era o lugar. O espaço em que a laje era
Laje,
O Sol tombava.
Subia a Lua. O mar sabia de ti o cheiro.
E tu de mim, intrínseca, qual claridade vate, irisada pupila
Em teu olhar.

Para aquém das grades, no negrume da noite
Dispensámos as palavras...

___
Foto: Alex

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Magic hands

Aquietam-se os astros contornando verbos
Quando
As palavras cedem espaços ao fulgor
Irradiante do silêncio …

Em palco lácteo, a mímica dos gestos:
Luz que emana de trevas cor de fogo…

Neófita de tão provecta, a lua desce …

Nada te digo...
Não dizes nada …

Migram meus dedos em teus dedos
E a pele, a nossa pele, miscigenada,
Sabe de nós periodicidades, cadências, rotas e enigmas
De povos nómadas. Ou de caravelas caminhantes
Por sobre águas bernardas...

Não existem tempos, metrónomos nem actos coevos
Quando, os olhos se espelham lagos
Em prelúdios de impulsividade harmónica
E a natureza cúmplice se nos iguala
E nos confere, em dádiva, a plasticidade corpórea
De nota fusa em tons de alabastro…

…agora, não mais que mágicos,

ou pintores naifs de quadros díspares que,
por sobrevivência, vendemos aqui, ao desbarato …
___
(Imagem de autor desconhecido)

domingo, 7 de Junho de 2009

Navego a tarde



Navego a tarde e o rio explode
Água que se iguala, luz. Que se longeva, rubra.

Bebo-a, ébria. (à).vida.

Aqui e além a corrente trás
Mapas e rotas soltas. Extraviadas folhas
De um livro que, por atonia, sequer escrevi.

Recolho-as. Minhas agora.

Navego o rio e o rio explode
Sémen, seara fértil, verbo e voz
Ungindo os pés dos trevos, dos verdes caules
Milho ou arroz...

Há uma lira em cada letra que te soletra.
Há um riso que cultivo: Elipse de sombra ou névoa.

Revogo trevas. (Re) temporizo-me. Atrevo-me.
Navego(te) e tudo É, se tu o rio, eu o farol,
Dulcíssimo ponto.
Aporto.(te).

....E te eternizo, mar, além de mim.

___
Tela: Vicent Van Gogh, The starry night

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Devolução

Devolveste-me
A filosofia dos dias largos
Dos dias amplos, dos dias brandos
O cheiro da pedra, o sal do mar -
Silêncios agasalhados em metáforas,
Magia matemática dos números primos,


… E a vontade remoçada
De me olhar em espelho
E ver-me amadurecida no lago boreal de teu olhar.

Devolveste-me a paz que abrigo em cada ruga e rua de nossa estrada.
____

Fotografia: Bailado Lago dos Cisnes (net)

terça-feira, 26 de Maio de 2009

Espessam-se...



Espessam-se
Os propósitos das pedras. E dos pés desnudos.
Preambular caminho de algas e de musgos
Resvaladiços
Onde as palavras omissas são silêncios seguros: Decantam o olhar
Verde de incerteza.

Os rios são os trilhos que procuro.
Neles, porque concisos, posso sempre navegar fímbrias à vista.
Tu és o meu rio.


___
Imagem da net (desconheço autor)

domingo, 24 de Maio de 2009

Do porto à vaga


Sublimação do traço. Da linha firme.
Arredondam-se as formas,
Navegação do gesto.
[Dizem que é urgente disciplinar afectos...]
Dizes que não…

Sem plano prévio, navegas.
O desenho abre-se aos olhos. Os olhos abrem-se:
Sexto sentido. Retina que se corporiza.

Rapidamente
Passas da razão à paixão.
[Dizem que a paixão é incontrolável…]
Digo que não….

Sobrevive a tela. Como um retrato implacável…

Do porto à vaga,
Nem mar de rosas, nem paraíso terrestre.
Mudança de paradigma. Insondável desígnio…

___
Tela: Rick Wheeler

sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Palimpsestos...

Sem hora marcada
O abraço. Sempre adiado. Agora!

Desacertados
Chorámos. Sem lágrimas.
[Era nos olhos que o mar salgava. ]
Vezes e vezes ….

Frente a frente expandimos o tempo.
Pressa de que o passado não inquine o presente.

De novo unidos. Palimpsestos
De amantes que fomos. Somos. Na alma.

Viagem sem estrada.


___
(Imagem da net)

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Persistência anti-cromática

“Restaurada pelo sono, a essência do homem é duplicada.”. - Dali


Na distância
A insondável proximidade onde o ontem e o agora
Se destemporizam no exactos dos
Momentos rememorados

A maré cheia
A vazante
A maré-alta…

Iminência e sede desmedida
Dos ponteiros em retrógradar ao zen
Instante da partida. E da chegada.

Chegas, sono, de
Persistência anti.cromática - busca interna dos dias brancos.

Bebo o sonho dos teus dedos…
De cansaço, amorteço.

Encanta-me a misantropia dos dias “tantos”…
E as memórias das vagas onde me encontro.
___
Tela: Salvador Dali

sábado, 9 de Maio de 2009

Azul cobalto

O voo cavernoso do vento nos espelhos de jacintos.
Sobre os cabelos nenúfares de Monet …

Um cello toca
Agita-se a crista das ondas.

As cordas são linhas
Paralelas
E o corpo revive na importância
De não temer a rebeldia de intempéries nem de sombras.

De quando em vez, o céu azul cobalto.
Doutras
Se acinzenta em tonalidades pardas de sobressaltos
E medos … Procuro a segurança dos teus dedos.
Não estás. Não és …

Sento-me na beira da pedra. Decanto-me
No gota-a-gota das memórias…

No futuro do ontem, longínquas, voam livres
Anáforas e metáforas.

Aquieto-me.
Para lá das ondas.
Para lá do silêncio.

___
Tela: Monet

sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Gerberas

Ressume das rugas da estrada. Do paludismo…
Febril poeira que apagou a marca-d’água.

Nem sequer o rosto. Oculto. Apenas a anteface
E o lirismo da alma.

Magnata, contempla o lírio. As açucenas,
Bocas-de-lobo ou “La Bocca della Verità …”?

Qual vulcânica cratera, a palavra em fio...
Intimista, opta: colhe uma gerbera….

Na mesa de cabeceira o livro e a espera
“fazes-me falta …”
__
Imagem: autor desconhecido

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Acianoblepsia


Parecia tudo tão denso. A disposição dos bagos.
Das sementes. Das pevides. Como uma rede em que,
Dos afectos, nada se perdia. Ou mar de vagas.
Fluente a enxertia
Dos garfos em cavalo. Dos verbos no branco do papel.

Depois era o Outono.

As sombras protectoras das árvores no quintal.
Eram gentios os ventos sobre as pedras.
Uma paleta giratória. O ciclo das colheitas.
Das cores, diziam, oscilavam entre o invisível e
Tonalidade albirosada.

A romã abria-se ao toque.
Incisivo dedos. O girassol rodava [procurava-te...]
Sobre o alguidar de barro ainda
Uma fatia suculenta de melancia.

Eram doces aqueles tempos.
Era certo que em certos dias, chovia.
E desses, a impossibilidade de distinguir a cor azul:
Acianoblepsia.

__
Tela:Malysheva, Larisa

Lura


Antes do vento a voragem das partículas
Diáspora em redemoinhos sobre os cabelos
Das estrelas e dos astros
Compelidos.
Antes do rio o sentido original das águas
Em busca de seu caminho,
[Antes do rio, do seu caudal sequer,
Havia as margens, a espera.
…E o vazio].
Antes ainda, na matriz unicelular
Do que deveria vir a ser meu corpo,
O teu. Lura. Artefacto de argila.
Molde e berço. E o escuro de um ventre.
E ai nasci.
Foste tu que me pariste. Boneca de trapos.
___

Tela . Victor Lages

segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Crisálida


Se tuas mãos tocassem minhas mãos
Serenas
E minhas mãos aflorassem palavras
Que a boca não ousa sequer dizer

Adormeceriam longínquos os barcos e os braços de rios
- Crisálidas a borboletas -,
E serras declinariam pálpebras
Em vestes nuas de corpos divinos vestidos de prazer.

___

Tela: Michelangelo Buonarroti


sábado, 2 de Maio de 2009

Das palavras

Arrastam-se. Como ruas atrás dos passos.
Esquinas seguindo as sombras.
Vagas prosseguindo barcos.
Ilha em alto mar (por vezes).

Impalpáveis. Informes. Escassas ou profícuas.
Perfilham quem não lhes cerra
Os dentes.
Mordem gengivas. Abrasam o céu-da-boca
Em carne viva, escalpes de alma.

Linfa, saliva. Vesículas seminais...

Formam legiões. Do Saara aos Alpes.
Formigas obreiras ou ofídias traiçoeiras?

Sem sentido

Doem-me as palavras
in
.corpo as palavras. As que não digo!
___
Tela: Martha Saunders

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Do tarde ... "Yesterdays dreams"

Era tarde. Noite dentro da noite. E a alvorecer, tempo embrionário.

Sob o luar, luares. E lobos. Vigiavam os pomares
Em ambição de frutos sãos. Maçã de Adão.
Sonhava.
Apenas os teus dedos. Imaginários. Um afago de rosto
E a dança dos corpos. Rudimentares os passos.
Pela calada da noite O ventre rasgado.
Um fio de sangue na ponta da fraga.
Assim nascemos e ficamos.

Fumei um cigarro.
___

Tela: Jack Vettriano (yesterday dreams)

quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Da dança

Concede-me por hoje apenas
Por um instante
Por um segundo
Por uma vez [que importa?]
Num rodopiar de verbos substantivos e acervos de lembrança
Os teus dedos [toca-me]
Os teus nervos [sente-me]
O borbulhar de sangue em tua aorta
O teu corpo
Contra
O meu corpo. Os meus nervos. Os meus dedos.
in Acto de entrega e fé.

A máscara que me oculta Não temas: é branca.

[O rosto que vendo, não vês, tem de ti secular arquivo:
Um alaúde toca em proximidade longínqua,
Estudante de Coimbra em serenata…
O Mondego ao fundo e Pedro e sua Inês…].

Concede-me a dança.
Passo a passo
Ponto a ponto
Num compasso miscigenado de fúria e calma: tango ou valsa.

Essência de fogo em ponta de lança. Ou espelho d’água.

Sou. Somos. És…
___
Tela:jacqui faye

domingo, 26 de Abril de 2009

Silabas pálidas

Dos estendais de beira-rio
Resvalam
Desvarios metafísicos e estreiteza de palavras.

A roupa seca. Volatiliza-se. Greta a boca. Estala a pele.
A mulher exposta ao Sol de Abril
Sente
Próximo o desfalecimento. Tórrida a.corda.
Alta a fasquia.
Eleva a vara. Tensionada.

Paixão na árvore nua
Que cresce p’ra teus braços em fatídica descrença
Certa que está de seu final abatimento.

É por dentro da alma que a alma sangra
Se ainda apaixonada. Silabas pálidas.
___
Foto: Matilde Celina

sábado, 25 de Abril de 2009

Da Liberdade

Nem chuvas nem ventos.
Apenas a brisa e a palavra até ai proibida:
Liberdade … Liberdade.

Era então Primavera e Maio de pronto acudiu
Em gentes, alvoroços e braços erguidos
E nas mãos diferentes que a revolução uniu.

Eram flores revestindo artérias e avenidas da cidade,
Era o sangue fremente murmurando :
Liberdade, Liberdade…

Era a certeza de que
A liberdade não mais seria utópica quimera
E de que quando um homem sonha
Não existem grades que sustenham rios de montanha
Em busca do mar que os espera.

Verdes são ainda as planície que se robustecem e
Rubras as papoilas: Searas de sol . de trigo . de fogo
Que plantaste em ventre fértil
Do Abril dos tempos e dos cravos. E das gentes.
___

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Do rio


Há um silêncio de barcos parados
- berços de homens e de sonhos -,
E um rio em espera.

Inquietam-se almas, agitam-se soltos os remos:
Tábuas em que o tempo ditou leis.

Resta um estaleiro onde Morfheu sequer reina.
... E o mar ao largo em desordem de vagas.

São corvos as madrugadas.
___

Foto: Matilde Celina

Do fado


"E amar-te assim, perdidamente
E dizê-lo cantando a toda a gente ..." Florbela Espanca

I

Já o rio raia no branco de uma fragata
E já é Tejo e corre e azuleje azul buscando do mar a cor
Ao fundo, quando, palmilhando cada viela antiga desta cidade
De Alfama à Mouraria, em cada pedra, em lapa, em cada aragem,
Em cada esquina, em júbilo chorando canto
E deixo teu nome gravado.

Desfraldo os abraços - velas latinas - , atravesso o dia
Vinda da noite . das tuas mãos . do lago de água doce
De teu corpo onde me perco e perdida me acho:

E as minhas tranças são cordas e eu e tu, gemidos
De viola, de guitarra: Como karma, como fado…
Entrelaçados.

[E cantando conto a cada pedra da rua, a cada aba
Lusa de telhado, de ser paixão de ser loucura,
De ser fogo e ser brandura, de ser tanto e nada ser
Se não estás a meu lado.]

E logo ao largo um barco . uma traineira . uma falua
E logo no rio outra branca se ergue: vela-mulher,
Mulher só tua…

Negra, me olho e assim me vejo:
Nua … nua, apenas num xaile traçado.

II

Uma gaivota, uma andorinha, o chilreio dorido de um rouxinol...

Voam já saudade por dentro de meu peito. E jogo fora a luz do dia
Pelas frestas de qualquer vidraça: quero da noite a fúria, a luz opaca, da lua,
Cumplicidade e a bonomia
E nós, só nós, por dentro de portas.

Louca de paixão, na mais insana escuridão, ergo minha voz a preito,
Que, meu amado,
Se me enlaço neste manto e canto,
Se te canto, canto o Sol…

E nada, em rigor, mais me importa.

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Caudal

Inflexível.
O rio e as margens.
Torrencial arquitectura do vazio.

Gongóricas as pedras com que te aduno,
Água sem cisterna.

A lágrima é um arco
Entre o olhar e o lábio

Aberto.

E este querer-te. Abundante
Caudal. Sem tréguas.

segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Do amor


Do amor?
Não sei Talvez uma ilha Uma língua de mar
Uma quilha invertida Um istmo insondável
Um opaco casulo: bruma ou precipício
em que me assomo
E donde bebo a incerteza ao porto de regresso.

Encho-me de silêncios.
Estilhaço os gestos e a vontade de ser tua.
Emudeço
E o poema fica vazio.

Não posso sonegar-me às palavras.

____
Tela: Oussik, Sergei

Do canto


Não, não busco a eternidade, quando construo a seta
Tensiono a corda recupero o arco: sequer a quero.
Nada mais desejo do mundo ou de ti.

Apenas

Saber-te ai acariciado pelo mar salgado e sol da tarde.

Por ti escrevo amor no infinito horizonte
E cantando te dou imortalidade.
___
Jim Zuckerman

sábado, 18 de Abril de 2009

Fénix



Quando chegou não encontrou vivalma.
A casa estava vazia de deserta. Uma mesa sem pão, uma cama sem corpos e as grades translúcidas de uma prisão.
Enclaustrou os olhos. Abarcou as paredes, a rua das paredes, as paredes dentro das ruas, a rua lá fora, abraçou a mesa abraçou o leito fincou raízes no chão. Na terra que não era. No cimento, no granito, nas torneiras metálicas. Ganhou raízes no chão. Frágil ainda as raízes subiram as paredes escoraram as paredes cerziram a mesa germinaram a semente oculta da razão. Recorda que havia a um canto uma ânfora. Tinha sede. A boca encortiçara. Esgotou a última gota do que restava dentro. Em delírio, irracional, lembrou as pautas, as letras. Contou pelos dedos. Lenta: um … dois…
Eram cinco letras o seu nome. Cinco os continentes. Cinco os dedos da sua mão que, no vácuo, não encontravam a dele. Em delírio o sol encheu o escuro do quarto escuro no escuro de quem não sabe já a cor de ser manhã. Ouviu ao longe o canto ímpio de um cisne solitário. Jura que ouviu...

(Depois, muito depois, quando voltou à realidade, disse-me que havia apenas a cor estranha que lhe tingia a palma aberta da sua própria mão e que o leito se encheu de volúpia, num bailado de ácaros. E que o cisne a tomava em asas e dela eram as asas do cisne... )

Descalçou as sandálias de mendiga, rebuscou carumas na lareira, costurou dias a fio, meses a fio, anos a fio, um fato de bruma seca, uns sapatos de salto de agulha. E renasceu de novo, Fénix. Para ele.

___
Foto: Matilde Celina

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Da paixão



Na lira, na harpa, os dedos como cordas
Os dedos como tarraxas, como forcas…
E a fúria dos dias turvos no granizar
Dos verbos desacertos. Abismo sépia,
Reduto a que me cerco e onde me tocam
As palavras. Diapasões. Ânforas rasas de água.

Tomas-me: Decibéis de ira. Por vezes.
E outras, dulcíssimas, qual veludo de pétalas,
Em queda sobre os prados.

E sou paixão. E sou loucura. Cítara ou guitarra que geme
Silêncio em forma duradoira.
Ou o cetim de tua boca.

__
Tela: Apolo tocando cítara (autor anónimo)

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Do desejo



Real o ensejo de te dizer
Do rio da ravina da fonte límpida
Aninhada em socalcos de repentina montanha.
- umbigo onde a mão do teu desejo
Contorna da fraga, a curva proibida. Suave …suave,
No revogar trevas, metáforas e quimeras.

Real falar-te agora de nossas mãos
Em espera. Do tempo que se explode
E nos demarca o rosto intrépido de saudade.

Real ainda falar-te lenta ao ouvido, rente em ti,
Tomada em tua carne hoje, como outrora,
E não saber de nada mais que não seja
Da pulsação (e)terna dos corpos
E da métrica sincopada dos poros.

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Tela: Victor Lages

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Lentamente corre



Lentamente corre. Como chuva de Abril sobre o meu rosto.
Desligo o comando. O automatismo. Desligo o que me liga.
A ti. À hora que persiste em ser retorta. Desligo(me),
Rega. Gota a gota. Sou. Árvore que s’abarba ao lanho.
Que resiste no sangue do machado que a corta. Pusilânime.

A fruta ainda. A flor da aurora. Lamina d’água. Néctar…Boca.
Primavera. Tela reflectida.

Lentamente corre. Lentamente (a)Vida...
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Tela: Nancy Poucher

segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Sulipas


É nas raízes que te transposto
Quando o sol do meio dia trespassa a sulipa da via férrea
E eu parto distante, restando aqui.

São as raízes que ainda abrigam memória friccional
Do aço do machado do corte: - vislumbres insurgentes
Da refega das asas. Nós que ficam
E sangram na sulipa, a tal travessa em que assentam os carris.

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Foto: Cortesia de amigos

sábado, 11 de Abril de 2009

Proscrita


Delapidação de folha. Gasto inútil de negra tinta.
O verbo não encontra a forma primitiva,
A palavra em que me digo, há muito está proscrita.

Em rigor, não eram minhas as asas
Nem o voô dos pássaros. Nada era meu... e eu sabia.
Por isso parto!
Regresso agora ao ventre da vaga que me pariu.
Peixe fora d’água, alimento fatal de gaivota.
Mãe...
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terça-feira, 7 de Abril de 2009

Epigramas & Concílios


“Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as cousas futuras do Oriente.”

Consílio dos Deuses (C. I, 20-41),
OS LUSÍADAS, Luís de Camões


A meia milha de distância ‘inda
E já o barco balanceia e o corpo arde.
Vulcano surge e ruge o mar. Circe
Eleva da boca o beijo, saliva em fogo.

Dos setes mares, dos sete céus,
A meia milha de distância, em lua nova,
Tece Penélope na praia rente à ilha
Rendilhados, filigranas de esperança
E, em noites de lua cheia, uivando roca e borda
Lenços d'(e)ternos dos namorados …
[De Rómulo e Reno a sua loba … ]

Ítaca chora e chama em cada ponto, em cada virgula,
Em cada malha que tece, o nome do homem que ama:
Ulisses …Ulisses …

Dez anos se passam, Ulisses branqueia e envelhece…

E já a nobilíssima armada avança
E rasga ousada a crista regente de negras vagas,
E já Ulisses demove serpes hediondas,
Se, pactuante com Kronos consome as horas sórdidas,
Se defrontando um a um, portentos marinhos,
Os enleia na irreverente ponta de sua esgrima.

Aplacam-se os mares, as trovoadas. Clarividente
Se faz o céu e brilha a água …

Em delírio se funde em desejo com Circe,
É Dom Quixote em defesa de sua Dulcineia,
Evoca Júpiter, Deus supremo,
Rejubila no êxito da Lusitana armada
Quando, fechando os olhos, em flores de sal
É o rosto doce de Penélope que sempre vê.

E nele fermentam silêncios em formas de palavras,
De povos Assírios, Persas, Gregos e Romanos
- e todos é! E todos canta!

Serena-se a Via Láctea… Crescem aos astros tranças,
E as mãos se tocam em urgentes dádivas e partilhas
E os corpos são do Olimpo
Concílios dos Deuses… E Baco avança
Inebriando em sublimação ausência e distância.

Vencido Marte, no reino supremo da eloquência,
A meia milha de diferença, se tece amoroso epigrama,
E por fim, impera de Vénus sentença…

Ulisses amará para sempre a sua Ítaca.
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Tela Bouguereau's The Birth of Venus.

sexta-feira, 3 de Abril de 2009

É do vento


É do vento
A demora [sequer o oiço]
E a razão pela qual permanecem
Flores de alabastro aqui na amendoeira em espera.
E palavras inteiras
- aquelas que a amena brisa sequer textura.

Virão as águas lavrar o rosto,
As chuvas de Abril sucedâneas a Março.
Virão os dias largos por sobre os curtos,
E nos campos [são verdes os campos, meu amigo…]
Ondularam as ancas e as searas:
Virão de novo madrigais de trigo colher meus braços. ..
E outros homens.
E outros risos, e outras formas. Longitudinais…

É do vento, a demora,
Que as águas, essas, voltam sempre no tempo certo,
Pelo caminho da água ao reentrante cavo dos poços.
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quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Dúvida metódica

Soa o rio, ecoa na pedra. E na água.
Memórias que nada apaga.

Ressoas em mim. Ressudas
Numa lágrima ressalga.
Em ressarcimento, ressaco
A dúvida metódica: Fico ou parto?

Refazem-se raízes
No mármore da bancada.

O gato trepa o muro.
Desenha-se o arco-íris no beirado.
Uma libélula esvoaça. Empurro a cadeira,
Iço-me recta. Sob meus pés, pulsam
As veias da terra. Equilibrista
Contrabalanço-me aprumada ao Sol.
Na ponta da vara, grito:
Basta. Ou tudo, ou nada. "Ou tudo, ou nada",
Responde-me apenas o eco.

Desarmada concluo: Em tudo há movimento.

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quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Um dia. Agora não!


Um dia hei-de falar-te das horas largas
Das horas livres das horas mágoas das horas bosques das horas flores
Que me olham atentas do campanário de fronte. Da luz
Divina. Caliça que se solta em iras de vento.
Da pedra sílaba do meu canto.

[Canto-te. Canto-te ainda. Nesta tela afligida,
Sem um lágrima, te canto…
]

Das crianças que fomos e brincam no jardim
E deles, daqueles que se encontram
Correlativos de mim. Dos a quem e para
Quem a vida já não contém sinopse de ilusão.

Um dia. Agora não!
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Foto: Matilde Celina

terça-feira, 31 de Março de 2009

Bacante

Bacantes serão os tempos
E os sons subtis se, nesta estranha entrega
Escolho os carreiros mais íngremes e, das pedras,
as mais escorregadias.

Se reuno alfinetes, espínulas, agulhas dos pinheiros
E todos, cúmplice, te entrego, para que me coroes rainha,
Sem manto ou ceptro,
Quando e porquanto, me desvaneço,
Qual eco, em cascatas e loas festivas, círios rumores
De chuva tímida e tombo, rectilínea

em teu colo, em teu porto, a teus pés...


Bacantes os tempos, estranha glória.

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domingo, 29 de Março de 2009

Garatujos



“ne quid nimis”…
Não mais que garatujos. Eis o que fica da tua passagem impúdica, carvão em tela branca.
Poderias ter deixado impressão digital, toque pleural, teres respirado a contra-mão do verso o inverso da obrigação. Mas não. Reduzes tudo à matemática pura. À soma algébrica das partes. Dos pesos. Dos volumes. Dos corredores por onde circula a multidão amorfa. Fica a transpiração desenhada nas paredes, registada em fungos, em musgos néscios.

"Em Roma sê romano", dizes.
Não concordo! Aliás, na maioria dos casos, contigo discordo sempre. Não te conheço, não me reconheço em ti… “nescio vos”.
Apenas a floresta. Vês. Não a árvore, o pássaro que livre canta, a larva que se esconde na fruta que ávido sorves pela garganta… Da fruta sã não lhe tomas o gosto. Não trincas devagar como quem canta. Uma lírica, um adágio…
[ Oiço agora Bach … Acalma-me a alma, enche-me o corpo em poesia].
Insistes: Não sabia!!! Como poderia adivinhar?
....“nemo jus ignorare non excusat”
Não, não te escudes na ignorância. Do risco, do rabisco, do traço do que não fizeste. O edifício ruiu ali em Alcântara. É o que importa!!!
Não me venhas falar que não sabias que por baixo corriam lençóis freáticos, que a culpa foi do geólogo que não te deu relatório exacto, que foi do tipografo que marcou mal as coordenadas. Do mestre de obras que calculou mal as escoras… do cimento que era falso (já não se fabrica nada que preste ...). Da areia salgada. Porra, será que não entendes que a ignorância não descarta o caso? O edifício era “teu caso”.
Repito: “nemo jus ignorare non excusat”
Ignoraste. Não acompanhaste. Não vigiaste.
Ficaste aqui. Confortavelmente aqui. Paulatinamente aqui. A vida é ali, meu caro. A vida muda a cada fracção de segundo. A cada movimento de uma pestana, de uma virgula magra sobre o papel. Pestanejaste e não viste a tinta da china a tombar sobre a chinela de quarto. A que usas. A que eternizas noite e dia, se não sobes como tanto insisto a visitar a Mouraria, a ver Lisboa lá do alto.
Bem te digo: “nec plus, nec minus”. A cada coisa a medida exacta: Nem fato surrado todos os dias, nem sempre de fato e gravata.
Garatujas, pois. Eu por mim, sei quem sou “medusa com cheiro a Ocean, alforreca naif”. Sei onde é meu lugar. Sei que não sei desenhar a cidade, apenas a sei caminhar, atolar os pés na miséria humana, beber águas fecais e cantar com as cantadeiras mais mundanas e banais.
Exacto, é o que ouviste. Sou romeira, andarilha, bandarilheira da vida, cornucópia dissentida… poeta a horas mortas, se às tuas mãos morri para a vida. Bem vês, nesta conversa absurda, já estou a “poetar”…

Não mais que garatujos: “ne sutor ultra crepitan”… sempre te vou dizendo.
Não sabes do que falo? Arquitecto? Não, já não sei… , confesso que até de teu diploma duvido. Não estudaste latim? E de provérbios, não sabes?
Traduzo, então: “não suba o sapateiro além da chinela…”. Exacto! Quando falas de mim, pensa primeiro em ti próprio. O edifício que construíste, aquele além de Alcântara, acabou de ruir. Grande aparato! Morreram os ratos, é bem verdade. Estava há muito desabitado… Mas e se estivessem lá mulheres, mendigos e crianças? Ficarias em paz com a tua consciência? Tu serias a causa! Tu serias a razão. Tu e a tua desatenção… Importa o conhecimento e a causa … Importa que te conheças a ti próprio…

Pára, gritas. Estás a ir para além de ti. “poeta nascitur, not fit”, retrucas áspero. Encolerizas-te. Rasgas a folha, encestas a janela. Escureces e a luz chega. Agora sou eu que fico de boca aberta. Afinal sabes latim. …
Abraço-te. Abraças-me. Garatujas. Garatujo. Desta rábula não sabemos ambos qual é o fim.

“e pur se muove!”, Galileu dixi.
Acredito. Finalmente dizes algo em que acredito…
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sábado, 28 de Março de 2009

Da memória



Repousa a luz sobre o peito das colinas.
Anuncia-se noite nos telhados. O gado já recolhido nos currais.
O cheiro a azeite quente nas candeias. Dorme o vento.
E a água da fonte, ainda menina…

A mão busca-te. Quase te toca. Lado a lado.
Mas tu não estás…

Que nos resta agora senão a espera
Por novos dias anunciados nos vagidos dos animais?
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quinta-feira, 26 de Março de 2009

Do poema

Enquanto espero pelas pedras da calçada
Os caminhos continuam térreos
E o alcatrão está ainda para lá distante.

Todavia, os passos e os gestos progressivos,
Seguem as rotas dos povos nómadas.
A pele freme e é, de uterinos pés, sem bolsa de água,
Única e exclusiva protecção.
Gemem ardósias que o não são. No pó do giz,
Residual polilha desertificada.

Fremente, afirmo:
Todo o poema nasce no escuro de um ventre.
De um desígnio. De um quase nada.
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quarta-feira, 25 de Março de 2009

Escriba

Escrevo sobre muramentos e rios subterrâneos
E hoje sei que os não temo, que os defronto:
São a pele e as veias de meu corpo.

[Longe estão os pássaros
E os fios de telefone. …
Às vezes, por vezes outras, ainda choro…]

Escrevo sobre as ondas do alto mar,
Essa massa de água truculenta que vai e vem
E vai e volta…

[E arrasta a voz em sal, e rasga a boca seca…
E fende a alma, e devassa o ventre…]

E tenho firme e convicta certeza
Que o tempo tem única direcção.

Unidireccional, se tudo dito,
Post-scriptum, escriba, escrevo.
Sem rebeldia, sem revolta…
E sigo(te). E sou(te).

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Foto: Sundeep Sidhu

segunda-feira, 23 de Março de 2009

Boca ou beijo?

É no beijo que a língua tece
O laço . o lastro . o fogo . o berço.
Que a vaga baila. Espuma e sémen.
Da palavra, gérmen.
Choro e riso.

Cintila o corpo.
(O corpo é casa. Eu água, tu fogo ..)

Espalma-se o beijo
Como o desejo que se aduna.

É no teu beijo que diminuta, engrandeço.

Mulher ou bicho?
Nem uma coisa nem outra: risco-te!
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sábado, 21 de Março de 2009

Sacra

Nem ferro
Nem escopo:
Apenas as palavras
A sustentar a pele do corpo

- asnas de um telhado
Que há muito pegou fogo…

Incendiada
Serena o olhar nas traves. A arte é sacra …
Soltam-se as muralhas, os cerra-cabos,
Os tridentes…

Como se a eternidade fosse um logro!
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sexta-feira, 20 de Março de 2009

Matriz booleana


Ainda me espanta o orvalho atordoado
Sobre cumes e ramos
E a Primavera a pespontar da matriz booleana
- escultura pálida.

Ainda me espanta a cor adamascada
De uma taça de champanhe.
Da cama, os lençóis amarfanhados...

Nela te sonho, quando a noite gélida,
Por finda, cede espaço ao intenso da madrugada.
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quinta-feira, 19 de Março de 2009

Cítara

Meu corpo cítara
Onde o teu acontece. Música,
Pirómana ternura que me fustiga...
Delongo-me ao infinito,
Adio a respiração. Contornas-me. Tomo-te.
No íngreme da arriba,
Como feto te acolho no enigma de meu ventre.

Papoila da Lezíria que em verde linho se exorna.
Melodia pura. A nossa.
Gritas. Grito!
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quarta-feira, 18 de Março de 2009

Reflecti(n)do

Lentamente sobre o mar
A mulher
Desvelava o olhar. Plácido. Rente à vaga.
Raso ao casco.

Reflecti(n)do o barco. E o Verão. E o rasto da viagem.

De amplitudes variáveis
Já não chorava. Era o Inverno no Outono da vida.
Amplificava-se.

No sorriso a força cristalina das marés.
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terça-feira, 17 de Março de 2009

Coelho branco



A língua inserta na clavícula quebrada da palavra
De braço dado entre o tempo demiurgo e
O vicio de um tempo sem futuro. E o passado.
Tempos de antanho.

Poeta do nada mas não de coisa nenhuma
Esconjuro-te verbo quando me tomas e me
Possuis em liquidez de corpo num irresoluto espaço
Entre o Deve e o Haver. Sem razão, o leite corre.

Na irracionalidade da consistência proteica dos líquidos,
Deglutizo-me no ar, sempre rarefeito,
Pelas narinas pontiagudas com que sorvo a liberdade
Quando te ofereço meu seio de fêmea, teu nutrimento.
Num tempo de antanho, recato-me:
Saco-te à cartola de meu espanto, “coelho branco".
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domingo, 15 de Março de 2009

Crónica do absurdo



A fractura é eminente, a crónica inocente. Do incongruente. Fio dental em dente furado. Melro em gaiola de gesso. Burgesso.
Não adianta, repito.Diálogo do absurdo.
Sabes tão bem quanto eu que a Baixa Pombalina nasceu sob a égide da conspiração, dizes sempre que avançamos na conversa. O tema volta, como naquele dia em que pousei à frente da tua janela. Nua. A janela, o corpo. Como no quadro de …
Desculpa? Outra vez o assunto. Censurado! Ponto.
Achas justo?? Não sei. Impúdico é!!! O quê????
A fenda, a funda, o rio ao fundo.
Afundo-me no canapé de veludo. O toque, o sinete e o cere. Ao lado. Em rodapé...
Fracturante. A mudança. A estratégia arrancada dos escombros da frieza, da organização do tempo em segundo de quase nada. É o que sinto, repito. E nunca minto, como tu bem sabes...
Agito-me. Agapito, o criador de Pinóquio. És.
Estratega da Eternidade. Sê-lo-ás, dizes, como o Marquês. Pois sim, talvez.
A prancheta que te aguarde. Não haverá edifício que tombe, sob o peso da idade. Estratega, morrerás de pé… como as árvores de Eduardo. O Sétimo. Pior só o tal de Henrique...
Estás para lá de confuso, digo.
O que mandava matar as mulheres? Não, o do Parque. Falamos de quem e de quê?
Não é o mesmo? Sei lá, talvez… não estou para ai. Não te digo mais nada.
Estratega? O Marquês, insistes.
E D. Maria? Não conta? Reinou e continuou ...
Atalhas: Como todas as mulheres, uma louca. Possessa, passou-se no virar da idade. Emigrada no Brasil, por cá não deixou saudade.
Encolerizo. Mas, a falar verdade, não me espanta. Aguarda que terás a resposta com luva de peliça.
Nem me espanta, repito. Conheço-te o lacre. O bico de lacre de papagaio das arábias.
Continuas. O traçado rectilíneo. Rotulagem do produto. Rasuras o gesto a calafetar a vaga. O mar em frente.
Análise de risco. Médio? Baixo? Alto? A validade...
Afagas a peça. “vintage”.
Bela, Bella-donna, Belíssima…. A do quinto andar, dizes em surdina quando a vês passar na calçada.
Há sete mares em Lisboa, minha amiga. Que novidade. Novidade seria saberes nadar… não sabes... “posso nem saber cantar, nem sequer assobiar…”
Vamos até à Nova do Almada? Pergunto e já sei a resposta.
Demasiado íngreme, demasiado alto. Garret que se acalme, ficará para outra vez…
Que nojo me metes. A sério, pareces um miúdo na idade dos porquês. Ao quilómetro zero...
Verdes são os parques. Vermelho está em desuso.
Bem sei. Sofres a metamorfose da imagem. Desfocas. E esqueces. Ou assim parece...
Avanço para o piano de cauda e espero. A terra treme. Estaremos sobre o Vesúvio? Não sei, não estudei Geografia. É de morfologia que falo. De placas tectónicas e avanços de mar. De avanços e recuos. De variações de marés. Recuas? Recuo...
Treme de novo. As teclas tocam sozinhas, o gato foge assanhado. Está o caldo entornado.
A história desta tarde é subterrânea. A fractura eminente... Sentes? Sinto. Tremeu outra vez...
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Tela: Hegarty, Valerie

sexta-feira, 13 de Março de 2009

Clivagem

Importa dizer
Do sono crasso dos oceanos
No após tempestades,
Das barcaças devoradas,
Dos marinheiros ébrios e naúfragos
Nos braços de uma mulher.

Importa falar
De berços, de braços
E destinos
Quando, na clivagem das vagas,
Sobejam sonhos descontínuos
Ou de quando, entre o real e o assessório,
Me detenho, me demoro,
Na fímbria tensa da palavra.

Importa repensar a metáfora da água.

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Tela: Lantsev, Alexei
(The Marine People)

quinta-feira, 12 de Março de 2009

Do voar

Não há fulgor nas aves
Que adormecem cabisbaixas em teus olhos
sem voar

- Solidão de gansos
E de crianças sem brinquedos -,

Não há honra ou póstuma glória
Que se possa lobrigar se o teu rosto
Não sente o toque sereno de meus dedos.
Não há fulgor nos medos...
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Foto: Matilde Celina

quarta-feira, 11 de Março de 2009

Porque te amo

Há um grito de silêncio
A cortar a madrugada dos teus dias
Num acordar de luas e de vagas concubinas

- o tempo, relógio incerto,
recomeça a contagem decrescente -,

Há a melancolia,
O sangue fremente coalhado
Em bruma e esta, esporeada na forma pálida
Das ondas de teus cabelos. E os meus dedos...

E uma Primavera aprendida
De mil vidas
O voo fulgurante de outras tantas borboletas
A semente sobrenatural das águas
O caudal e as veias dos poemas.

E este canto (porque te amo, te canto...)
E esta distancia que distanciando aproxima
O cume inóspito do sopé da colina…
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Serigrafia: Morais, Graça

terça-feira, 10 de Março de 2009

Dizem-me


Dizem-me que todos os dias nascem navios
Nas ondas do alto mar. Dizem-me sem palavras
Que és qual Ulisses de Ítaca… que no antes havia
Um périplo, uma sinopse do impossível
E uma rota e uma carta de marinar.
Falam-me de cítaras
E de sítios onde ainda o poema floresce. Acredito.

Todavia, à janela a que me assomo, naufraga,
Vejo apenas um mar sem margens
E gaivotas sem regresso.
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Tela: Dali, Salvador